Engenharia de Harness: O motor não é mais o problema

Por que a estrutura ao redor do modelo — o “harness” — decide se um agente de IA funciona de verdade

Durante um bom tempo, o jogo foi aprender a se comunicar melhor com o modelo. Depois, o jogo virou garantir que ele tivesse as informações certas na hora certa. Hoje, é preciso ir além.

O que trava um projeto de IA agora é tudo aquilo que cerca o modelo: quem autoriza suas ações, quem audita seus resultados, o que ele consegue reter de uma execução para outra, até onde vai seu raio de ação, e se existe algum registro do que ele fez. Esse conjunto de mecanismos ganhou um nome — “harness”, ou estrutura de execução.

Vale notar que uma etapa não anula a anterior — ela engloba. Saber montar o contexto certo já pressupõe saber formular bem o pedido. E construir um harness robusto pressupõe as duas coisas anteriores, somando ainda um conjunto de capacidades que nem o melhor prompt nem o melhor contexto conseguem entregar sozinhos: gerenciamento de ferramentas, dupla checagem, memória entre sessões, controle de acesso, rastreabilidade, escolha inteligente de modelo e capacidade de aprender com os próprios erros.

Estatísticas recentes mostram que a esmagadora maioria dos projetos corporativos de agentes de IA — quase 9 em cada 10 — não sai do papel rumo à produção. E raramente é porque o modelo escolhido é fraco. O problema costuma estar em outro lugar: informações que se perdem ao longo de sessões longas, ausência de barreiras de segurança, incapacidade de manter estado entre uma interação e outra, ou mecanismos de correção que nunca fecham o ciclo. Coloque duas equipes usando exatamente o mesmo modelo, mas com estruturas de execução diferentes, e os resultados serão completamente distintos. O que separa sucesso de fracasso é essa estrutura — não o modelo em si.

Do que se trata, afinal

Pense no modelo como o cérebro bruto, a capacidade de raciocínio pura. O harness é o que transforma essa capacidade em algo em que se pode confiar na prática. É a ponte entre o raciocínio do modelo e as consequências reais no mundo: como as ferramentas são acionadas, como o trabalho é conferido, o que fica guardado na memória, quem pode fazer o quê, e o registro de tudo isso.

Uma estrutura madura tem, no fundo, sete frentes de trabalho — e cada uma delas resolve um tipo específico de problema.

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Primeira frente – ferramentas: quem manda nelas

Um princípio central: o modelo jamais deve executar uma ação por conta própria. Ele apenas propõe — indica qual função quer chamar e com quais parâmetros. Cabe à estrutura ao redor validar se o pedido faz sentido, se há permissão para aquilo, executar de fato, e devolver o resultado. Esse intermediário é justamente o que impede que uma tentativa de manipulação maliciosa vire execução de código sem controle.

Na prática, isso funciona como um sistema de rascunho seguido de aprovação. Ações que podem causar dano são propostas, mas ficam retidas até alguém confirmar. Coisas inofensivas, como apenas ler um dado, passam sem barreira nenhuma. Já ações que alteram ou apagam algo esperam luz verde.

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O ganho real aqui é que o agente nunca fica “no escuro”. Toda tentativa de usar uma ferramenta — tenha ela dado certo, sido barrada por falta de permissão, ou estourado o tempo — volta para o agente como uma resposta organizada. Isso poupa o sistema de ter que adivinhar o que aconteceu lendo uma saída de terminal crua e ambígua.

Segunda frente – loops de verificação: ninguém corrige a própria prova

Um princípio quase óbvio, mas frequentemente ignorado: quem produziu algo não deve ser também quem avalia se ficou bom. Um modelo tende a ser complacente com o próprio trabalho — ele já “acredita” na solução que deu, então uma segunda avaliação, feita por outra instância com instruções diferentes, tende a pegar falhas que passariam batido numa autoavaliação.

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Um episódio real ilustra bem isso: em certo momento de 2026, o Claude Code apresentou uma queda perceptível de qualidade. Ao investigar, a Anthropic identificou três alterações distintas na camada de estrutura — nada relacionado ao modelo em si: um ajuste que reduziu o esforço de raciocínio permitido, uma falha de cache que descartava parte do histórico de “pensamento” do modelo, e um prompt que restringia demais a verbosidade das respostas. O modelo continuava sendo o mesmo modelo. O que mudou foi tudo em volta dele — e isso bastou para degradar a experiência inteira. A empresa publicou uma análise pública do ocorrido. A conclusão não foi “o modelo precisa melhorar”; foi “a estrutura de execução é, na prática, a qualidade percebida do seu produto”.

Essa checagem independente não precisa ser cara. Coisas simples — o código compila? os testes passam? a mudança ficou dentro do que foi pedido? — podem ser verificadas por um modelo leve e barato. Guarde o modelo mais caro e poderoso para os casos que exigem julgamento de verdade. O que importa não é o preço do verificador, e sim o fato de ele ser separado de quem produziu o resultado.

Terceira frente – contexto e memória: o que fica na cabeça do agente

A lição da era anterior foi: o que você mostra ao modelo pesa mais do que como você formula a pergunta. O passo seguinte é deixar de depender de um humano acertando manualmente o que entra no contexto toda vez — e passar essa responsabilidade para a própria estrutura.

Um sistema bem construído resume o que já foi feito, descarta resultados de ferramentas que já cumpriram seu papel, e mantém na “mesa de trabalho” apenas o que a etapa atual realmente precisa. Sem essa disciplina, conversas longas acabam lotando a janela de contexto disponível, informação relevante começa a ser empurrada para fora, e a qualidade do raciocínio despenca aos poucos.

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A memória segue a mesma lógica, só que entre sessões diferentes, não dentro da mesma conversa. Regras, restrições e lições aprendidas ficam gravadas em arquivos que são recarregados automaticamente sempre que uma nova sessão começa. Assim, um erro cometido numa sessão anterior não se repete na próxima — porque a lição já está escrita em algum lugar que o sistema sempre consulta antes de agir. Sem esse hábito, cada sessão nasce do zero, sem aprender nada do passado. Com ele, o sistema realmente evolui ao longo do tempo.

Um teste simples para saber se isso está funcionando: se, quarenta interações depois, o agente ainda respeita uma restrição definida logo no início, a memória está fazendo seu trabalho. Se ela evapora bem antes disso, não está.

Quarta frente – Proteções (guardrails): as barreiras de proteção

Antes de qualquer resposta chegar ao usuário final ou a outro sistema, ela deveria passar por uma checagem contra regras estabelecidas. Isso deixou de ser um “extra” — regulamentações recentes (leis estaduais e regionais sobre IA, exigências de conformidade que já pedem prova de controles ativos sobre o que sistemas de IA produzem) tornaram isso praticamente obrigatório.

Um erro comum é tratar todo tipo de agente com o mesmo nível de rigor. Um assistente que só conversa com clientes não precisa das mesmas travas que um agente com poder de alterar um banco de dados de produção. O nível de exigência deveria acompanhar o risco real da tarefa — nem de menos, nem exageradamente mais.

Dá para pensar nessas travas em quatro grandes grupos: as que cuidam do tom e da segurança do conteúdo gerado; as que impedem vazamento de dados sensíveis ou informação pessoal identificável; as que controlam o que o agente pode ou não executar, principalmente ações irreversíveis; e as que limitam gasto — tempo, tentativas, custo em tokens — para que uma tarefa que deveria custar centavos não vire uma fatura de centenas de dólares por causa de um loop mal controlado.

Quinta frente – observabilidade: enxergar o que está acontecendo

Um agente que funcionava perfeitamente semana passada pode começar a falhar essa semana sem que uma única linha de código tenha mudado — o provedor do modelo pode ter feito um ajuste silencioso, uma API externa pode ter mudado o formato da resposta, ou simplesmente surgiu um caso de uso que nunca tinha sido testado. Sem visibilidade sobre o comportamento do sistema, você só descobre o problema quando ele já quebrou algo em produção. Com essa visibilidade, dá para perceber o desvio antes que vire dano de fato.

Times que conseguem acompanhar cada ação tomada por um agente, e identificar quando o comportamento começa a fugir do padrão, são os que conseguem dar mais autonomia ao sistema com segurança, aos poucos. Sem esse acompanhamento, cada nova liberdade concedida ao agente é um tiro no escuro; com ele, vira uma decisão baseada em dados reais.

Vale registrar cada chamada de ferramenta e seu desfecho — isso cria uma trilha auditável do que aconteceu. Vale medir não o volume total gasto, mas o custo por resultado realmente aproveitado — se a maioria do que o agente produz acaba sendo descartada, algo está desequilibrado. E vale comparar o padrão de comportamento de uma semana com o da anterior, para pegar uma eventual regressão antes que o usuário final perceba.

Sexta frente – roteamento e seleção de modelo: nem tudo precisa da artilharia pesada

Nem toda subtarefa exige o modelo mais potente disponível. Verificar formatação ou classificar um item não pede o mesmo poder de raciocínio que planejar uma mudança arquitetural complexa. Um sistema sem essa distinção manda tudo pelo modelo mais caro e reza para o orçamento aguentar. Um sistema bem desenhado escolhe, para cada etapa, o modelo mais econômico capaz de resolver aquilo — reservando o modelo topo de linha só para onde ele realmente faz diferença.

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A régua prática é simples: tarefas mecânicas e repetitivas vão para modelos rápidos e baratos; tarefas que exigem julgamento, planejamento ou raciocínio mais sofisticado vão para os modelos mais robustos. E essa escolha deve acontecer automaticamente, de acordo com o tipo de tarefa — sem depender de alguém lembrar de trocar manualmente o modelo no meio do processo.

Sétima frente – feedback e autoaperfeiçoamento: aprender com os próprios tropeços

Um sistema estático se comporta do mesmo jeito na centésima execução e na primeira. Um sistema que incorpora feedback, por outro lado, registra cada rejeição, cada estouro de tempo ou orçamento, e transforma isso em uma regra escrita — regra essa que toda execução futura vai consultar automaticamente.

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Isso não tem nada a ver com retreinar o modelo; os parâmetros internos dele permanecem intocados. O que muda é o ambiente ao redor: as regras ficam mais precisas, a escolha de modelo melhora, o contexto fica mais enxuto e relevante. Com o tempo, a etapa de verificação vai encontrando cada vez menos problemas, simplesmente porque as restrições acumuladas já impedem que os erros antigos se repitam.

Por que a maioria dos projetos não decola

Esse número alto de projetos que travam antes da produção não vem de modelos incapazes — vem de lacunas estruturais: etapas puladas, verificações ignoradas, desvios de comportamento que ninguém está monitorando. Alguns padrões se repetem:

Sessões longas acabam “esquecendo” restrições definidas no começo, porque o processo de resumir o histórico descarta instruções importantes ao longo do caminho — e o agente acaba fazendo exatamente aquilo que tinha sido proibido de fazer.

Quando não existe uma segunda checagem independente, o próprio agente valida seu trabalho — e tende a aprovar quase tudo que produz. Uma avaliação externa, feita por outra instância com critérios diferentes, revela uma fatia significativa de problemas que passariam despercebidos numa autoavaliação.

Sem controle de permissões por ferramenta, uma tentativa de manipulação externa — por exemplo, embutida no texto de uma tarefa ou ticket — pode virar execução de comando sem que nada a impeça no caminho.

Atualizações silenciosas feitas pelo provedor do modelo podem mudar sutilmente o comportamento do sistema, e sem uma referência de comportamento “normal” para comparar, isso pode passar batido por semanas.

A ausência de qualquer persistência entre sessões faz com que o mesmo contexto precise ser reconstruído do zero repetidamente, a um custo real — e os mesmos erros voltam a acontecer porque nada foi de fato aprendido.

E, sem limites claros de gasto, um agente preso num ciclo de tentativas repetidas pode gerar uma conta bem mais alta do que qualquer um esperava.

Em todos esses casos, o modelo em si não é o vilão. Troque-o por outro e o mesmo tipo de falha volta a acontecer. Ajuste a estrutura ao redor, e o mesmo modelo passa a funcionar bem. O momento ideal para pensar nessa estrutura é antes de qualquer usuário real interagir com o agente — não depois que o primeiro problema já causou estrago.

Os limites dessa abordagem

Uma estrutura de execução bem feita não conserta um objetivo mal definido. Se a tarefa em si é vaga, o sistema mais sofisticado do mundo vai simplesmente errar com muita consistência.

As travas de segurança também precisam de manutenção — permissões configuradas uma vez e nunca revisadas dão uma falsa sensação de controle; vale revisá-las periodicamente.

E existe o risco oposto: exagerar na quantidade de camadas de aprovação e verificação torna tudo lento e burocrático. Um sistema pensado para o setor financeiro, aplicado sem ajuste a um projeto pequeno e experimental, vai parecer desnecessariamente pesado. O nível de controle deveria ser proporcional ao risco real envolvido.

No fim das contas, essa estrutura é infraestrutura — não é o produto em si. Ninguém valoriza a estrutura de execução por ela mesma; o que importa é o resultado que o agente entrega através dela.

Para fechar

Se antes o desafio era formular bem uma pergunta, e depois passou a ser escolher bem o que mostrar ao modelo, agora o desafio é montar tudo o que cerca esse modelo para que ele possa operar de verdade em produção: quem autoriza suas ações, quem confere seu trabalho, o que ele carrega de uma sessão para outra, até onde ele pode ir, e se existe registro do que foi feito.

Continuar escolhendo qual modelo usar como se isso ainda fosse a decisão mais importante é responder a uma pergunta que já ficou para trás. O modelo é só o motor; a estrutura ao redor é o veículo inteiro. Não faz sentido entregar um motor sem nada em volta dele.

Não é preciso implementar tudo de uma vez. Comece pelo controle de ferramentas e por uma checagem básica de qualidade. Adicione memória quando perceber que as mesmas situações estão se repetindo entre sessões. Adicione travas de segurança quando o agente passar a interagir com algo visível ao cliente final. Adicione monitoramento quando precisar comprovar que o sistema está funcionando como esperado. Adicione escolha inteligente de modelo quando o custo começar a incomodar. E adicione a capacidade de aprender com os próprios erros quando quiser que o sistema realmente pare de tropeçar na mesma pedra.

São sete frentes de trabalho ao todo. Ignore a maioria delas e você tem, na melhor das hipóteses, uma demonstração interessante. Trabalhe nas sete, e você tem um sistema que efetivamente melhora a cada execução.

Fonte: Adaptado e resumido de: Harness Engineering: the skill that replaced prompt engineering in 2026 e publicado no LinkedIn

Indo mais a fundo: Agent Harness Engineering, by Addy Osman

As tais “Engenharias” do mundo de Agentes que se utilizam da IA Generativa

Conteúdo do artigo

Engenharia de Prompt: mensagem/comando que informa o papel, o contexto, as instruções, alguns exemplos e o formato de saída.

Engenharia de Contexto: é a memória. Trata de como armazenar e recuperar informações relevantes ao Agente de IA.

Engenharia de Harness: É a máquina. Trata de tudo que envolve o cérebro do Agente (Modelo): Contexto, ferramentas, subagentes, RAG, integrações (via APIs ou MSPs), tratamento de erros, …

Engenharia de Loop: é a execução iterativa. Um mecanismo que decide se a máquina deve ser executada novamente. Para isso é necessário um objetivo definido no princípio, limites como um número máximo de iterações ou um orçamento de custo, e um critério automático que determine quando a tarefa realmente terminou. Vide Engenharia de Loop: Como Construir Agentes que Melhoram o Próprio Trabalho

Engenharia de Graph: é a coordenação. Quando vários loops têm que trabalhar juntos, é necessário definir o que se executa, quando se executa, o que pode ser feito em paralelo e quais componentes supervisionam os outros.

Em resumo: Prompt e Contexto estão na fase de coleta do harness; Harness executa um ciclo completo; Loop decide se o ciclo deve ser repetido; Graph decide quais loops executar e como eles se coordenam.

Veja também:

DeepTech – Ciência e Tecnologia a serviço da Inovação e Negócios

Depois de ter empreendido em duas empresas de tecnologia, ao longo dos últimos 12 anos tenho contribuído com o ecossistema brasileiro de startups de diversas formas: participando como convidado em eventos, organizando o livro “Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil”, provendo mentoria e consultoria de negócios para dezenas de startups e empresas, participando de outros livros e postando artigos neste blog.

No recente evento DeepCamp do IPT em parceria com o SEBRAE,  a convite de Luciano Avallone, participei do painel sobre Modelos de Negócio DeepTech, moderado por Tatyane Sales num bate-papo junto com Jorge Pacheco (STATE) e Paula Lima (CIETEC).

No painel conversamos desde Proposição de Valor e outros elementos importantes a serem considerados em um modelo de negócios DeepTech, até questões sobre investimentos, laboratórios, inovação aberta na conexão de startups com empresas, propriedade intelectual (patente), licenciamento/transferência de tecnologia e legalização junto aos órgãos regulamentadores.

Este post é dedicado a cientistas, engenheiros, designers, empreendedores e investidores envolvidos com negócios DeepTech, bem como aos que administram laboratórios científicos/técnicos e incubadoras de empresas.

Image: Particle spin occurs in the subatomic world where the laws of quantum physics apply (*1)

O que é DeepTech?

O termo DeepTech, refere-se às startups cujo modelo de negócios é baseado em inovação de alta tecnologia em engenharia ou avanços científicos significativos. Envolve o aproveitamento de tecnologias maduras e emergentes para resolver os maiores problemas que o mundo enfrenta hoje, ao mesmo tempo em atua com objetivos de negócios arrojados e revigora cadeias de valor.

Deeptechs pesquisam, desenvolvem e implantam tecnologias de grande impacto e alto capital, como inteligência artificial, biologia sintética, computação quântica e realidade aumentada.

As tecnologias emergentes são muito promissoras, mas sem uma maneira de focar a tecnologia certa nos desafios mais urgentes, as empresas não podem obter todo o seu valor.

Vale observar que não existe uma tal “tecnologia profunda”, DeepTech trata-se uma abordagem habilitada pela orientação a problemas e a convergência de abordagens e tecnologias, impulsionada pelo ciclo de design-construção-teste-aprendizagem (DBTL – Design-Build-Test-Learn).

Como observou Clayton Christensen, que desenvolveu a teoria da tecnologia disruptiva, poucas tecnologias são intrinsecamente disruptivas ou sustentáveis em si mesmas; em vez disso, a solução e o modelo de negócios construído em torno ou por meio das tecnologias são disruptivos. A mesma ideia se aplica à DeepTech.

As DeepTechs questionam barreiras básicas, obstáculos e pontos cegos na abordagem atual para a solução de problemas. Elas contam com tecnologias emergentes enraizadas na ciência e engenharia avançada que oferecem avanços significativos em relação às tecnologias estabelecidas. Na verdade, aproximadamente 70% dos empreendimentos DeepTech possuem patentes que cobrem a tecnologia que usam, e geralmente exigem pesquisa e desenvolvimento (P&D) e engenharia significativos antes que as empresas possam trazer soluções práticas de negócios ou de consumo do laboratório para o mercado e usá-las para resolver problemas fundamentais.

Atributos complementares dos empreendimentos DeepTechs

  • São orientados para o problema. Concentram-se em resolver problemas grandes e fundamentais, como fica claro pelo fato de que 97% dos empreendimentos DeepTech contribuem para pelo menos uma das metas de desenvolvimento sustentável da ONU.
  • Atuam na convergência de tecnologias. Por exemplo, 96% dos empreendimentos DeepTech usam pelo menos duas tecnologias e 66% usam mais de uma tecnologia avançada. Cerca de 70% dos empreendimentos de tecnologia profunda possuem patentes em suas tecnologias.
  • Desenvolvem principalmente produtos físicos, em vez de software. De fato, 83% dos empreendimentos DeepTech estão envolvidos na construção de um produto físico. Eles estão mudando a equação da inovação de bits para bits e átomos, trazendo o poder dos dados e da computação para o mundo físico.
  • Estão no centro de um ecossistema DeepTech. Cerca de 1.500 universidades e laboratórios de pesquisa estão envolvidos em DeepTech, e empreendimentos DeepTech receberam cerca de 1.500 doações de governos somente em 2018.

Ecossistema DeepTech

Na imagem que segue pode-se observar que no ecossistema DeepTech cada participante contribuindo com valor.

A Quarta Onda de Inovação

A primeira onda de inovação empresarial moderna começou no século XIX e início do século XX com avanços como o processo Bessemer para fabricação de aço e o processo Haber-Bosch para fabricação de amônia.

Após a Segunda Guerra Mundial, a segunda onda de inovação empresarial moderna – a revolução da informação – deu origem à P&D de grandes empresas, particularmente nos setores de TIC e farmacêutico. Bell Labs, IBM e Xerox PARC tornaram-se nomes conhecidos e oficinas do Prêmio Nobel. Só a Merck lançou sete novos medicamentos importantes durante a década de 1980.

Na onda seguinte, a revolução digital – dois caras em uma garagem (ou um dormitório de Harvard) – liderou a carga de inovação, resultando na ascensão do Vale do Silício e, mais tarde, da Costa Dourada da China como centros globais de tecnologia de computação e comunicação e crescimento econômico. Ao mesmo tempo, o novo campo da biotecnologia, também impulsionado por empreendedores, alimentou grande parte da inovação em produtos farmacêuticos.

A onda agora tomando forma à medida que as barreiras mais antigas à inovação desmoronam abraça um novo modelo e promete ampliar e aprofundar radicalmente a inovação em todos os setores de negócios.

O poder crescente e o custo decrescente da computação e o aumento das plataformas de tecnologia são os contribuintes mais importantes. A computação em nuvem está melhorando constantemente o desempenho e expandindo a amplitude de uso. As biofundições estão se tornando para a biologia sintética o que a computação em nuvem já é para a computação. Plataformas semelhantes estão surgindo em materiais avançados (Kebotix e VSPARTICLE são dois exemplos).

Enquanto isso, os custos continuam caindo, incluindo aqueles relacionados a equipamentos, tecnologia e acesso à infraestrutura.

O uso crescente de padrões, kits de ferramentas e uma abordagem aberta à inovação, juntamente com a disponibilidade cada vez maior de informações e dados, também está desempenhando um papel importante.

Alimentando a Grande Onda: A Abordagem da Deep Tech

Os empreendimentos de tecnologia profunda bem-sucedidos contam com uma abordagem tripla

  • Eles usam a orientação para problemas para identificar oportunidades e navegar e dominar a complexidade.
  • As convergências de abordagens e de tecnologias potencializam a inovação, ampliam o espaço de opções e resolvem problemas para os quais não existiam soluções anteriormente.
  • O ciclo de projeto-construção-teste-aprendizagem (DBTL) reduz os riscos e acelera o desenvolvimento do produto e o tempo de comercialização.

As DeepTechs vivem na convergência de três abordagens

A convergência de tecnologias abre novas oportunidades

Draft de um canvas de Modelo de Negócios DeepTech genérico

Aqui vale lembrar que um modelo de negócios em sua essência deve comunicar de forma sintética como a organização cria, entrega e captura valor. Considera-se que deve acompanhar um plano estratégico bem elaborado, que fará parte de um Plano de Negócios, e que os slides de um pitch devem conter um belo resumo deste plano.

Observação: Cada Negócio DeepTech provavelmente será único, com um modelo de negócios apropriado a ser desenhado de forma apropriada para representá-lo.

Considerações finais

O objetivo deste post foi o de fornecer um resumo introdutório ao tema DeepTech e apresentar uma ideia de sua abrangência. Vide abaixo, links para mais artigos relacionados com empreendedorismo inovador.

Sobre mim: aqui. Contato: aqui.

Abraços, Nei Grando

Referências

Este post foi elaborado a partir de uma tradução adaptada e resumida de um um relatório da consultoria BCG “Deep Tech and the Great Wave of Innovation”, by Antoine Gourevitch, Massimo Portincaso, Arnaud de la Tour, Nicolas Goeldel, and Usman Chaudhry.

Outras referências consideradas neste post:

Links para os sites das instituições mencionadas

Artigos relacionados

Escolhendo os sócios ao empreender

Na jornada de empreender é preciso: um motivo (propósito); uma razão (por que?); uma paixão (ideia); um desejo/vontade (querer fazer); um comportamento (escolha de valores); um jeito próprio de ser (estilo); escolher um caminho (estratégia); escolher os companheiros (sócios e equipe); estabelecer os marcos; tentar prever os obstáculos (dificuldades, riscos); obter os recursos necessários; planejar; saber como executar (desenvolver, produzir, divulgar, vender, entregar); e muito mais.

Segundo  Joseph Schumpeter[1], o empreendedor precisa ser alguém versátil, que possui as habilidades técnicas para saber produzir, e capitalista, que consegue reunir recursos financeiros, organizar as operações internas e realizar as vendas da sua empresa.

Empreender também requer fazer escolhas, como por exemplo: iniciar individualmente (só) ou coletivamente (com sócios)? Atuar como serviços, comércio ou indústria? Ter um negócio próprio ou uma franquia? Atender empresas (B2B) ou usuários finais (B2C); Utilizar um canal de vendas físico ou virtual?

Tendo em vista os desafios e as habilidades necessárias para construir e gerir um negócio, decidir fazê-lo com um ou mais sócios é uma opção atraente. Mas como escolhê-los? E como alinhar as expectativas de cada um, manter bom relacionamento e evitar conflitos?    

            É disso que trata este artigo, questões societárias básicas.

Compartilhando o peso de empreender

Quando se pensa em ter um sócio para dividir o lucro do negócio, a primeiro ponto a se levar em conta é por que ter um sócio? Ou, ainda melhor, para que é que eu preciso ter um sócio?

Percebe-se um ambiente de negócios cada vez mais imprevisível, dinâmico, ininterrupto e acelerado. Empreender nesse ambiente não é uma tarefa fácil, pois conforme BENNETT e LEMOINE (2014) agora a gestão inclui volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade,  exigindo mais flexibilidade e agilidade aos decisores das empresas.

Em maio de 2011, ocorreu na FIAP, em São Paulo, um evento de tecnologia chamado GoaP – Geeks on a Plane, e nele, um dos palestrantes, investidor da região de Silicon Valley dos EUA, disse que a maioria das startups que obteve sucesso por lá, tinha dois ou mais sócios e destacou que carregar todo o peso de uma empresa sozinho não é uma tarefa fácil.

O relatório Startup Genome[2] aponta que fundadores solitários de empresas levam 3,6 vezes o mais tempo para atingir o estágio de crescimento em escala da startup do que as empresas com dois sócios.  Ou seja, sociedades com dois parceiros de negócios em sintonia geram sinergia, “1 + 1 é mais que 2”.

Mesmo sem ter as estatísticas do Brasil nesta área, pode-se imaginar cenários semelhantes nos quais fica mais fácil se conduzir uma empresa compartilhando as responsabilidades do negócio com um bom parceiro, alguém ético, que tenha paixão pelo que faz, muita vontade de trabalhar, e com competências complementares às do cofundador, suportando as pressões do dia-a-dia e transmitindo energia positiva para incentivar as pessoas a sua volta.

Vale lembrar que, por diversas razões, o risco de continuidade em uma empresa dependente de apenas um sócio é maior, podendo inclusive dificultar o acesso a recursos financeiros de investidores.

Sócio é um recurso muito caro

TRIAS DE BES (2008), aponta o sócio como o mais caro dos recursos de uma empresa, pois é com ele que o lucro será dividido. Um sócio é um recurso a mais, porém, às vezes, é possível encontrar outras formas de substituí-lo sem precisar fornecer participação na sociedade.

Um dos motivos que pode levar o empreendedor a se associar é o medo. O medo de empreender, de correr riscos, errar ou de não dar conta do que precisa ser feito; o medo de estar só e, às vezes, até mesmo o medo de tomar decisões. Para empreender sozinho, é necessário ser capaz de suportar as pressões do dia a dia, principalmente as que são causadas por eventos inesperados. Esses eventos podem ser internos, como um colaborador chave pedir demissão de uma hora para outra, ou podem ser externos, como um fornecedor que não entregou a mercadoria no prazo, o aumento repentino de custo de insumos, um novo concorrente que surgiu ou até mesmo alguma mudança radical na economia. É preciso saber tomar decisões, e rápido, mas não apressadamente. (TRIAS DE BES,2008).

Empreender requer uma visão particular das coisas, uma mistura de intuição e visão de negócio, difícil de compartilhar e alinhar com a visão de outras pessoas. Decidir sozinho permite decidir rápido, e isto é uma vantagem.

Em sociedade, algumas decisões requerem a aprovação de todos ou pelo menos da maioria, e isto pode levar algum tempo. Nesse sentido, para as coisas acontecerem rápido, alguém deve ser designado como responsável pelas decisões finais, com poder e autoridade de comando, direção e ordem.

Algumas perguntas para reflexão:

  • É realmente necessário um sócio e dividir parte do capital?
  • O que esse sócio pode fazer pelo negócio que eu não posso?
  • A escolha desse parceiro de negócios está sendo feita pela razão certa? Qual a motivação?
  • Que capital (R$) e quais outros recursos físicos e intangíveis o sócio trará para o negócio? O quanto de valor realmente será acrescentado ao negócio?
  • Os objetivos de curto, médio e longo prazos estão em sintonia?
  • Existem outras maneiras para preencher a falta de conhecimento ou capacidades sem que eu precise ter um sócio?

Alguns recursos que podem substituir a necessidade de um sócio:

  • Se precisar apenas de dinheiro, procure uma linha de crédito, um fundo de capital de risco, um investidor ou um banco.
  • Se precisar de ajuda, contrate um profissional.  Preferencialmente alguém que seja especialista na função ou atividade escolhida: gestor administrativo, gestor financeiro, gestor de vendas, ou outro.
  • Se precisar de alguém para fazer uma parte do negócio, a qual não domina e não faça parte do núcleo do negócio, terceirize para quem tem competência.
  • Se quiser companhia, para não tomar decisões precipitadas, converse com outros empreendedores; participe de feiras e eventos, fóruns de negócio etc.
  • Se precisar de conselhos técnicos, contrate um consultor;
  • Se precisar de conselhos legais, contrate um advogado.

Observações:

  • Se decidir contratar alguém ou terceirizar procure fazer isto com cautela, seja criterioso na seleção dos candidatos e só faça isso no momento que realmente estiver precisando da pessoa ou empresa, preferencialmente depois de ter bons clientes pagantes, ou seja, fluxo de caixa positivo.

Características do Sócio Ideal

Um bom sócio, mais do que um recurso, é alguém integro, de bom caráter, com perfil complementar de personalidade e de competências, que tem muita vontade de trabalhar, sintonizado com os demais sócios e com os objetivos do negócio e que realmente agregue valor à sociedade. É preciso que tal parceiro de negócios tenha paixão, coragem, preparo e determinação para empreender.  Não pode ser apenas alguém legal que parece levar jeito para a coisa. Vale lembrar que a escolha desse novo cotista é bilateral ou multilateral, ou seja, tanto a empresa quanto o candidato estarão decidindo. Para isso, é importante conhecer melhor a si mesmo e o outro, o que pode levar algum tempo. (GERBER, 2012; WELCH, 2005).

WELCH (2005), ao discorrer sobre liderança, apresenta um método que utilizou na General Electric. Nele, apresenta algumas características essenciais a um líder:

  • Integridade (sinceridade) – pois diz a verdade, cumpre as promessas, assume responsabilidades por suas ações passadas, reconhece seus erros e os conserta, conhece as leis do país e as regras da empresa e as cumpre, joga para ganhar de maneira honesta seguindo as regras.
  • Inteligência – pois têm curiosidade intelectual, conhecimentos e capacidade para trabalhar com outras pessoas.
  • Maturidade – pois enfrenta bem as situações de sufoco, sabe lidar com o estresse e retrocessos, nos momentos maravilhosos curte o sucesso, respeita as emoções alheias, é confiante, mas não é arrogante, tem senso de humor, principalmente a respeito de si mesmo.

Se o candidato passou por estas características essenciais, WELCH (2005) então continua em frente, recomendando verificar os 4Es e 1P a saber:

  • Energia positiva – pois avança, prospera na ação e curte a mudança, é geralmente extrovertido e otimista, conversa com naturalidade e faz amizade com facilidade, começa o dia com entusiasmo e geralmente o termina da mesma maneira, raramente parece cansado durante a jornada, não se queixa do excesso de trabalho, gosta de trabalhar mas também gosta de se divertir e ama a vida.
  • Energização – tem a capacidade de energizar os outros, inspirar a equipe a aceitar desafios e/ou o impossível e vibrar com a missão, deve conhecer profundamente o negócio e ter forte capacidade de persuasão.
  • Estofo – ou seja, a coragem de tomar decisões difíceis do tipo sim ou não, sabe quando partir para a ação, mesmo com poucas informações arrisca e usa a intuição.
  • Execução – faz o que é preciso fazer (o trabalho), converte decisões em ações e persiste até a conclusão, supera as resistências, vence o caos e transpõe os obstáculos inesperados, sabe vencer e conseguir resultados.
  • Paixão – tem uma vibração sincera, profunda e genuína em relação ao trabalho, importa-se de verdade com a vitória dos colegas, colaboradores e amigos; ama aprender a crescer e é estimulado/a quando outras pessoas ao redor também aprendem e crescem; não vibra apenas com o trabalho, demonstra paixão por tudo, pois tem a seiva da vida nas veias.

Esses podem parecer adjetivos de super-herói, mas são um ideal a buscar. É raro encontrar um profissional para gestão ou um pretendente a sócio com todas essas qualidades, mas essa lista, pelo menos, serve como guia comparativa, nos ajudando a avaliar as características do possível sócio. Podem também servir para uma avaliação pessoal de qualidades e defeitos, como instrumento de autorreflexão.

Ao longo do convívio e/ou durante uma boa conversa com perguntas apropriadas é possível identificar os comportamentos típicos da pessoa, seus hábitos, seus pontos fortes e seus pontos fracos. Afinal, o objetivo é encontrar alguém competente, leal, ético/a, de confiança e comprometido/a.

Perfis de sócios a serem evitados

Segundo GERBER (2012) Ao analisar um potencial sócio deve-se considerar alguns perfis que, quando são exagerados devem ser evitados:

  • O dono da ideia – a ideia do negócio é importante e tem valor, mas sem a devida execução, esse valor fica próximo de zero. Se o provável sócio é apenas a pessoa que trouxe a ideia do negócio, isso não basta. Para fazê-la tornar-se realidade, é preciso investimento e muito trabalho. O dono da ideia terá de participar de tudo, precisará fazer sua parte.
  • O perfeccionista – perfeccionismo[3] é um defeito e não uma virtude. Muitas vezes, a busca da perfeição em um plano ou uma tomada de decisão pode mascarar uma procrastinação ou o medo de fazer acontecer. O profissional deve buscar a excelência e mitigar riscos, mas deve também ter equilíbrio e iniciativa.
  • O acadêmico – a base acadêmica pode ser muito útil ao negócio, um doutor pesquisador pode ter muito a contribuir, mas é bom certificar-se de que o potencial sócio saiba distinguir a teoria da realidade. Na prática nem tudo acontece como ensinam os livros, sendo necessário considerar a realidade do mercado entre outros fatores.
  • O dono da razão – algumas pessoas pensam que estão sempre certas, são influenciadoras e até mesmo manipuladoras. Têm dificuldade de ouvir e aceitar as ideias e opiniões de outras pessoas. Muitas vezes são verdadeiros ditadores que odeiam ser contrariados. Vale lembrar que a empatia, a colaboração e a boa comunicação são essenciais em uma sociedade.
  • O folgado – a vida pessoal é importante, mas a fase inicial de uma empresa vai exigir sacrifícios. Muitos dizem que haverá alegria, mas que exigirá dos sócios: “sangue, suor e lágrimas”, ou seja, muito trabalho. Algumas pessoas tendem a não dedicar o mesmo tempo ao trabalho do que outras. Elas sempre têm algo pessoal urgente e/ou importante a fazer, estão sempre precisando de uns dias de folga e dificilmente repõem o tempo usado com horas de trabalho adicional em outros dias. É preciso cuidado para não trazer para o negócio alguém que nunca aparece. Antes de escolher um sócio, verifique se o estágio atual de vida dele ou dela é compatível com o seu, exemplo: solteiro/a versus casado/a com filhos pequenos.
  • O gastão – uma empresa iniciante geralmente não tem muitos recursos financeiros. Um sócio “boa vida”, que não tem responsabilidade com o gasto do dinheiro da empresa ou que mistura despesas pessoais com as da sociedade pode destruir o negócio em pouco tempo. O ideal é alguém que valorize cada centavo ganho ou a ser investido no negócio. É fundamental estabelecer claramente de que forma o dinheiro da empresa será usado.

Além desses perfis exagerados, existe um outro tipo de sócio que deve ser considerado com cuidado: o parente. Muitas empresas familiares dão certo, a confiança costuma ser o principal motivo para esse tipo de sociedade, mas vale lembrar que ter o marido ou a esposa como sócios pode prejudicar o relacionamento do casal. Ter o irmão ou irmã como sócios pode ser muito interessante a princípio, mas imagine se não der muito certo trabalhar juntos, como administrar os conflitos? Como seria a separação? Uma coisa é despedir um funcionário, outra é terminar a sociedade com um ex-amigo, por exemplo, já a pior situação de todas é ter que pedir um rompimento societário com um parente e depois ter que encontrá-lo no círculo familiar.

Uma conversa franca

Antes de escolher o sócio ou a sócia é bom ter uma conversa a dois de portas fechadas, e, então dialogar sobre: visão política, religiosa, time que torcem, maus hábitos e estilo de trabalho; dívidas e/ou obrigações financeiras que cada um tem; informações que seriam reveladas ao checar antecedentes de crédito; se há alguma disputa jurídica pessoal ou corporativa em aberto ou do passado, ou potenciais problemas que podem surgir a qualquer momento; obrigações pessoais, empresariais ou de estudo que podem afastá-lo/a das atividades na empresa; desejos de participação de capital e trabalho na sociedade, bem como outros pontos a serem considerados em um acordo formal; informações sobre cônjuge, pais, irmãos e filhos; visão para o negócio e outros pontos que achar relevante para ajudar na tomada de decisão de se associar ou não. Lembre-se de que a confiança mútua será fundamental na caminhada. (GERBER, 2012).

O que deve ser combinado entre os sócios

Ao escolher um ou mais sócios para o empreendimento, algumas coisas precisam ser combinadas e ficar muito claras. Advogados e investidores, recomendam ter tudo documentado num acordo de cotistas[4], um documento que complementa o contrato social[5] exigido por lei. Quando se coloca o que foi combinado num documento, fica difícil alguém falar depois em uma conversa: “eu não disse isso” ou “não foi bem isso que eu quis dizer”. Antes mesmo da sua função legal, esse documento tem o papel de lembrar os envolvidos sobre aquilo que foi combinado e, por isso, deve ser muito bem redigido, lido, e conferido antes de ser assinado pelas partes. Isso separa o relacionamento de amizade do profissional e evitará, ou pelo menos diminuirá, muito os conflitos, discussões e até mesmo as brigas no futuro.  O apoio e as orientações de um advogado experiente são recomendados neste caso, e é claro que o acordo poderá ser alterado no futuro com o consentimento de todos.

O que deve conter o acordo de cotista

O mais importante é saber qual será o papel de cada um na sociedade. Não só o cargo, mas também as funções, ou seja, qual “chapéu” ou quais os “chapéus” que usarão. Quais serão suas responsabilidades e qual será a remuneração por esse trabalho. É importante separar bem a participação no lucro da empresa, que está relacionada com as cotas da sociedade, da remuneração pelas atividades. 

Outro item fundamental é com relação à saída de um dos sócios, a conhecida cláusula de exit. É importante combinar desde o início da sociedade como será a separação, ou seja, o que será feito se um dos sócios quiser deixar a empresa, ou, ainda mais grave, se um dos sócios quiser que o outro deixe a empresa.

Além de estipular o capital inicial, deve ser combinado em que situações poderão ser feitos aportes adicionais de dinheiro e como serão os procedimentos.

O documento deve indicar quem autoriza pagamentos e assina os cheques.

Cuidados adicionais devem ser tomados com relação a sócios investidores, que só entram com o capital no negócio.

Observação:

As sociedades de responsabilidade limitada correspondem a mais de 90% das sociedades (empresas com mais de um sócio) legalmente formalizadas no Brasil. Uma sociedade assim visa à proteção do patrimônio pessoal dos sócios, ou seja, se a sociedade não der certo ou tiver um insucesso comercial, os sócios responderão no limite do capital social pré-estabelecido em contrato. E, assim estará preservado o patrimônio pessoal de cada um dos sócios. No entanto, é preciso tomar cuidado para ter impostos e taxas pagos em dia e estar atento para não misturar dinheiro pessoal com o da pessoa jurídica. Se houver um insucesso e for constatada uma confusão patrimonial ou sonegação fiscal, o juiz poderá considerar que os bens pessoais foram adquiridos com o dinheiro da empresa, então cai por terra a responsabilidade limitada.

Considerações finais

Este artigo descreveu de forma introdutória e resumida informações importantes sobre a relação entre sócios, porém, conforme a introdução, na jornada empreendedora, existem muitas outras áreas do conhecimento a considerar na criação e gestão de uma empresa, assim espera-se que um potencial empreendedor ou sócio – busque pelo menos um mínimo de tais conhecimentos, além do apoio de mentores e advisors, para reduzir os riscos e incertezas que fazem parte de um negócio na prática.


Autor

Nei Grando – diretor executivo da STRATEGIUS, é consultor e palestrante em estratégia, inovação, transformação digital, organizações exponenciais e cidades inteligentes; pesquisador em inteligência artificial; conselheiro de empresas e mentor de startups. Autor do blog neigrando.com – Mestre em ciências pela FEA-USP, graduado em TI pela UEM, com MBA em Administração pela FGV e cursos de extensão em Estratégia e Gestão do Conhecimento (FGV) e Inovação e Redes Sociais (ESPM). Teve duas empresas de software e soluções de TI, onde conduziu o desenvolvimento de portais e plataformas digitais de negócios, internet-banking, home broker, CRM, GED, GC e outros. É o organizador e um dos autores do livro “Empreendedorismo inovador”, e autor em outros três. Como professor, ministrou as disciplinas de “Strategic Thinking” e “Planejamento Estratégico” em curso MBA da FIAP, “Intelligence Driven Decision” e “Fundamentos de Inteligência Artificial” em curso MBA da ESPM e como prof. convidado, no curso “Laboratório de Startups” do CIC-ESPM.

Notas

[1] SHUMPETER (1934)

[2]Veja mais sobre o Startup Genome Report 2011, resultante de pesquisa foi feita com mais de 660 empresas de TI para levantar características de Startups de sucesso, em:

[3] Segundo a Wikipidia: O perfeccionismo é um distúrbio neurótico no qual a pessoa tem um sentimento constante de insatisfação com seu desempenho e dúvidas sobre a qualidade de seu trabalho, o que leva o indivíduo a escrupulosidade, verificações de pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessivas prejudicando a sua pontualidade e eficiência.

[4] Esse acordo é similar ao Acordo de Acionistas utilizados pelas sociedades anônimas (S.A.). IBGC (2019), chama este documento de Acordo de Fundadores na fase pré-operacional e Acordo de Sócios após a empresa ser formalizada e operacional.

[5] Orientações para Elaboração de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/elaboracao_contrato.htm

Modelo de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/modelo_basico_contrato.htm

Referências

BENNETT, Nathan; LEMOINE, G. James. What a difference a word makes: Understanding threats to performance in a VUCA world. Business Horizons, v. 57, n. 3, p. 311-317, 2014.

BRASIL. Lei 6.404. Dispõe sobre as Sociedades por Ações. 15 dez. 1976. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6404consol.htm>. Acesso em: 20 abr. 2019.

FDC – Fundação Dom Cabral. Causa da mortalidade das startups brasileiras: como aumentar as chances de sobrevivência no mercado. 2012. Disponível em: < https://www.fdc.org.br/conhecimento/publicacoes/artigo-29767>. Acesso em: 20 abr. 2019.

GERBER, Scott. Nunca procure um emprego! Dispense o chefe e crie o seu próprio negócio sem ir à falência. São Paulo: Évora, cap.6, p.92-103, 2012.

GRANDO Nei. Só ou acompanhado? A escolha de sócios. In: GRANDO, Nei. (ORG). Empreendedorismo inovador: Como criar Startups de Tecnologia no Brasil. São Paulo: Évora, cap.4, p.54-72, 2012. 

IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Governança Corporativa para Startups & Scale-ups. São Paulo: IBGC, 2019.

SCHUMPETER, Joseph A. The theory of economic development: An inquiry into profits, capital, credit, interest, and the business cycle. Transaction publishers, v.55, 1934.

STARTUP COMMONS. “Startup Development Phases”. Disponível em: <http://www.startupcommons.org/startup-development-phases.html&gt;. Acesso em: 20 abr. 2019.

TRIAS DE BES, Fernando. O Livro Negro do Empreendedor: Depois não diga que não foi avisado. Rio de Janeiro: Best Seller, cap.6, p.56-61, 2008.

WELCH, Jack.  Paixão por Vencer. São Paulo: Campus, 2005

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