Escolhendo os sócios ao empreender

Na jornada de empreender é preciso: um motivo (propósito); uma razão (por que?); uma paixão (ideia); um desejo/vontade (querer fazer); um comportamento (escolha de valores); um jeito próprio de ser (estilo); escolher um caminho (estratégia); escolher os companheiros (sócios e equipe); estabelecer os marcos; tentar prever os obstáculos (dificuldades, riscos); obter os recursos necessários; planejar; saber como executar (desenvolver, produzir, divulgar, vender, entregar); e muito mais.

Segundo  Joseph Schumpeter[1], o empreendedor precisa ser alguém versátil, que possui as habilidades técnicas para saber produzir, e capitalista, que consegue reunir recursos financeiros, organizar as operações internas e realizar as vendas da sua empresa.

Empreender também requer fazer escolhas, como por exemplo: iniciar individualmente (só) ou coletivamente (com sócios)? Atuar como serviços, comércio ou indústria? Ter um negócio próprio ou uma franquia? Atender empresas (B2B) ou usuários finais (B2C); Utilizar um canal de vendas físico ou virtual?

Tendo em vista os desafios e as habilidades necessárias para construir e gerir um negócio, decidir fazê-lo com um ou mais sócios é uma opção atraente. Mas como escolhê-los? E como alinhar as expectativas de cada um, manter bom relacionamento e evitar conflitos?    

            É disso que trata este artigo, questões societárias básicas.

Compartilhando o peso de empreender

Quando se pensa em ter um sócio para dividir o lucro do negócio, a primeiro ponto a se levar em conta é por que ter um sócio? Ou, ainda melhor, para que é que eu preciso ter um sócio?

Percebe-se um ambiente de negócios cada vez mais imprevisível, dinâmico, ininterrupto e acelerado. Empreender nesse ambiente não é uma tarefa fácil, pois conforme BENNETT e LEMOINE (2014) agora a gestão inclui volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade,  exigindo mais flexibilidade e agilidade aos decisores das empresas.

Em maio de 2011, ocorreu na FIAP, em São Paulo, um evento de tecnologia chamado GoaP – Geeks on a Plane, e nele, um dos palestrantes, investidor da região de Silicon Valley dos EUA, disse que a maioria das startups que obteve sucesso por lá, tinha dois ou mais sócios e destacou que carregar todo o peso de uma empresa sozinho não é uma tarefa fácil.

O relatório Startup Genome[2] aponta que fundadores solitários de empresas levam 3,6 vezes o mais tempo para atingir o estágio de crescimento em escala da startup do que as empresas com dois sócios.  Ou seja, sociedades com dois parceiros de negócios em sintonia geram sinergia, “1 + 1 é mais que 2”.

Mesmo sem ter as estatísticas do Brasil nesta área, pode-se imaginar cenários semelhantes nos quais fica mais fácil se conduzir uma empresa compartilhando as responsabilidades do negócio com um bom parceiro, alguém ético, que tenha paixão pelo que faz, muita vontade de trabalhar, e com competências complementares às do cofundador, suportando as pressões do dia-a-dia e transmitindo energia positiva para incentivar as pessoas a sua volta.

Vale lembrar que, por diversas razões, o risco de continuidade em uma empresa dependente de apenas um sócio é maior, podendo inclusive dificultar o acesso a recursos financeiros de investidores.

Sócio é um recurso muito caro

TRIAS DE BES (2008), aponta o sócio como o mais caro dos recursos de uma empresa, pois é com ele que o lucro será dividido. Um sócio é um recurso a mais, porém, às vezes, é possível encontrar outras formas de substituí-lo sem precisar fornecer participação na sociedade.

Um dos motivos que pode levar o empreendedor a se associar é o medo. O medo de empreender, de correr riscos, errar ou de não dar conta do que precisa ser feito; o medo de estar só e, às vezes, até mesmo o medo de tomar decisões. Para empreender sozinho, é necessário ser capaz de suportar as pressões do dia a dia, principalmente as que são causadas por eventos inesperados. Esses eventos podem ser internos, como um colaborador chave pedir demissão de uma hora para outra, ou podem ser externos, como um fornecedor que não entregou a mercadoria no prazo, o aumento repentino de custo de insumos, um novo concorrente que surgiu ou até mesmo alguma mudança radical na economia. É preciso saber tomar decisões, e rápido, mas não apressadamente. (TRIAS DE BES,2008).

Empreender requer uma visão particular das coisas, uma mistura de intuição e visão de negócio, difícil de compartilhar e alinhar com a visão de outras pessoas. Decidir sozinho permite decidir rápido, e isto é uma vantagem.

Em sociedade, algumas decisões requerem a aprovação de todos ou pelo menos da maioria, e isto pode levar algum tempo. Nesse sentido, para as coisas acontecerem rápido, alguém deve ser designado como responsável pelas decisões finais, com poder e autoridade de comando, direção e ordem.

Algumas perguntas para reflexão:

  • É realmente necessário um sócio e dividir parte do capital?
  • O que esse sócio pode fazer pelo negócio que eu não posso?
  • A escolha desse parceiro de negócios está sendo feita pela razão certa? Qual a motivação?
  • Que capital (R$) e quais outros recursos físicos e intangíveis o sócio trará para o negócio? O quanto de valor realmente será acrescentado ao negócio?
  • Os objetivos de curto, médio e longo prazos estão em sintonia?
  • Existem outras maneiras para preencher a falta de conhecimento ou capacidades sem que eu precise ter um sócio?

Alguns recursos que podem substituir a necessidade de um sócio:

  • Se precisar apenas de dinheiro, procure uma linha de crédito, um fundo de capital de risco, um investidor ou um banco.
  • Se precisar de ajuda, contrate um profissional.  Preferencialmente alguém que seja especialista na função ou atividade escolhida: gestor administrativo, gestor financeiro, gestor de vendas, ou outro.
  • Se precisar de alguém para fazer uma parte do negócio, a qual não domina e não faça parte do núcleo do negócio, terceirize para quem tem competência.
  • Se quiser companhia, para não tomar decisões precipitadas, converse com outros empreendedores; participe de feiras e eventos, fóruns de negócio etc.
  • Se precisar de conselhos técnicos, contrate um consultor;
  • Se precisar de conselhos legais, contrate um advogado.

Observações:

  • Se decidir contratar alguém ou terceirizar procure fazer isto com cautela, seja criterioso na seleção dos candidatos e só faça isso no momento que realmente estiver precisando da pessoa ou empresa, preferencialmente depois de ter bons clientes pagantes, ou seja, fluxo de caixa positivo.

Características do Sócio Ideal

Um bom sócio, mais do que um recurso, é alguém integro, de bom caráter, com perfil complementar de personalidade e de competências, que tem muita vontade de trabalhar, sintonizado com os demais sócios e com os objetivos do negócio e que realmente agregue valor à sociedade. É preciso que tal parceiro de negócios tenha paixão, coragem, preparo e determinação para empreender.  Não pode ser apenas alguém legal que parece levar jeito para a coisa. Vale lembrar que a escolha desse novo cotista é bilateral ou multilateral, ou seja, tanto a empresa quanto o candidato estarão decidindo. Para isso, é importante conhecer melhor a si mesmo e o outro, o que pode levar algum tempo. (GERBER, 2012; WELCH, 2005).

WELCH (2005), ao discorrer sobre liderança, apresenta um método que utilizou na General Electric. Nele, apresenta algumas características essenciais a um líder:

  • Integridade (sinceridade) – pois diz a verdade, cumpre as promessas, assume responsabilidades por suas ações passadas, reconhece seus erros e os conserta, conhece as leis do país e as regras da empresa e as cumpre, joga para ganhar de maneira honesta seguindo as regras.
  • Inteligência – pois têm curiosidade intelectual, conhecimentos e capacidade para trabalhar com outras pessoas.
  • Maturidade – pois enfrenta bem as situações de sufoco, sabe lidar com o estresse e retrocessos, nos momentos maravilhosos curte o sucesso, respeita as emoções alheias, é confiante, mas não é arrogante, tem senso de humor, principalmente a respeito de si mesmo.

Se o candidato passou por estas características essenciais, WELCH (2005) então continua em frente, recomendando verificar os 4Es e 1P a saber:

  • Energia positiva – pois avança, prospera na ação e curte a mudança, é geralmente extrovertido e otimista, conversa com naturalidade e faz amizade com facilidade, começa o dia com entusiasmo e geralmente o termina da mesma maneira, raramente parece cansado durante a jornada, não se queixa do excesso de trabalho, gosta de trabalhar mas também gosta de se divertir e ama a vida.
  • Energização – tem a capacidade de energizar os outros, inspirar a equipe a aceitar desafios e/ou o impossível e vibrar com a missão, deve conhecer profundamente o negócio e ter forte capacidade de persuasão.
  • Estofo – ou seja, a coragem de tomar decisões difíceis do tipo sim ou não, sabe quando partir para a ação, mesmo com poucas informações arrisca e usa a intuição.
  • Execução – faz o que é preciso fazer (o trabalho), converte decisões em ações e persiste até a conclusão, supera as resistências, vence o caos e transpõe os obstáculos inesperados, sabe vencer e conseguir resultados.
  • Paixão – tem uma vibração sincera, profunda e genuína em relação ao trabalho, importa-se de verdade com a vitória dos colegas, colaboradores e amigos; ama aprender a crescer e é estimulado/a quando outras pessoas ao redor também aprendem e crescem; não vibra apenas com o trabalho, demonstra paixão por tudo, pois tem a seiva da vida nas veias.

Esses podem parecer adjetivos de super-herói, mas são um ideal a buscar. É raro encontrar um profissional para gestão ou um pretendente a sócio com todas essas qualidades, mas essa lista, pelo menos, serve como guia comparativa, nos ajudando a avaliar as características do possível sócio. Podem também servir para uma avaliação pessoal de qualidades e defeitos, como instrumento de autorreflexão.

Ao longo do convívio e/ou durante uma boa conversa com perguntas apropriadas é possível identificar os comportamentos típicos da pessoa, seus hábitos, seus pontos fortes e seus pontos fracos. Afinal, o objetivo é encontrar alguém competente, leal, ético/a, de confiança e comprometido/a.

Perfis de sócios a serem evitados

Segundo GERBER (2012) Ao analisar um potencial sócio deve-se considerar alguns perfis que, quando são exagerados devem ser evitados:

  • O dono da ideia – a ideia do negócio é importante e tem valor, mas sem a devida execução, esse valor fica próximo de zero. Se o provável sócio é apenas a pessoa que trouxe a ideia do negócio, isso não basta. Para fazê-la tornar-se realidade, é preciso investimento e muito trabalho. O dono da ideia terá de participar de tudo, precisará fazer sua parte.
  • O perfeccionista – perfeccionismo[3] é um defeito e não uma virtude. Muitas vezes, a busca da perfeição em um plano ou uma tomada de decisão pode mascarar uma procrastinação ou o medo de fazer acontecer. O profissional deve buscar a excelência e mitigar riscos, mas deve também ter equilíbrio e iniciativa.
  • O acadêmico – a base acadêmica pode ser muito útil ao negócio, um doutor pesquisador pode ter muito a contribuir, mas é bom certificar-se de que o potencial sócio saiba distinguir a teoria da realidade. Na prática nem tudo acontece como ensinam os livros, sendo necessário considerar a realidade do mercado entre outros fatores.
  • O dono da razão – algumas pessoas pensam que estão sempre certas, são influenciadoras e até mesmo manipuladoras. Têm dificuldade de ouvir e aceitar as ideias e opiniões de outras pessoas. Muitas vezes são verdadeiros ditadores que odeiam ser contrariados. Vale lembrar que a empatia, a colaboração e a boa comunicação são essenciais em uma sociedade.
  • O folgado – a vida pessoal é importante, mas a fase inicial de uma empresa vai exigir sacrifícios. Muitos dizem que haverá alegria, mas que exigirá dos sócios: “sangue, suor e lágrimas”, ou seja, muito trabalho. Algumas pessoas tendem a não dedicar o mesmo tempo ao trabalho do que outras. Elas sempre têm algo pessoal urgente e/ou importante a fazer, estão sempre precisando de uns dias de folga e dificilmente repõem o tempo usado com horas de trabalho adicional em outros dias. É preciso cuidado para não trazer para o negócio alguém que nunca aparece. Antes de escolher um sócio, verifique se o estágio atual de vida dele ou dela é compatível com o seu, exemplo: solteiro/a versus casado/a com filhos pequenos.
  • O gastão – uma empresa iniciante geralmente não tem muitos recursos financeiros. Um sócio “boa vida”, que não tem responsabilidade com o gasto do dinheiro da empresa ou que mistura despesas pessoais com as da sociedade pode destruir o negócio em pouco tempo. O ideal é alguém que valorize cada centavo ganho ou a ser investido no negócio. É fundamental estabelecer claramente de que forma o dinheiro da empresa será usado.

Além desses perfis exagerados, existe um outro tipo de sócio que deve ser considerado com cuidado: o parente. Muitas empresas familiares dão certo, a confiança costuma ser o principal motivo para esse tipo de sociedade, mas vale lembrar que ter o marido ou a esposa como sócios pode prejudicar o relacionamento do casal. Ter o irmão ou irmã como sócios pode ser muito interessante a princípio, mas imagine se não der muito certo trabalhar juntos, como administrar os conflitos? Como seria a separação? Uma coisa é despedir um funcionário, outra é terminar a sociedade com um ex-amigo, por exemplo, já a pior situação de todas é ter que pedir um rompimento societário com um parente e depois ter que encontrá-lo no círculo familiar.

Uma conversa franca

Antes de escolher o sócio ou a sócia é bom ter uma conversa a dois de portas fechadas, e, então dialogar sobre: visão política, religiosa, time que torcem, maus hábitos e estilo de trabalho; dívidas e/ou obrigações financeiras que cada um tem; informações que seriam reveladas ao checar antecedentes de crédito; se há alguma disputa jurídica pessoal ou corporativa em aberto ou do passado, ou potenciais problemas que podem surgir a qualquer momento; obrigações pessoais, empresariais ou de estudo que podem afastá-lo/a das atividades na empresa; desejos de participação de capital e trabalho na sociedade, bem como outros pontos a serem considerados em um acordo formal; informações sobre cônjuge, pais, irmãos e filhos; visão para o negócio e outros pontos que achar relevante para ajudar na tomada de decisão de se associar ou não. Lembre-se de que a confiança mútua será fundamental na caminhada. (GERBER, 2012).

O que deve ser combinado entre os sócios

Ao escolher um ou mais sócios para o empreendimento, algumas coisas precisam ser combinadas e ficar muito claras. Advogados e investidores, recomendam ter tudo documentado num acordo de cotistas[4], um documento que complementa o contrato social[5] exigido por lei. Quando se coloca o que foi combinado num documento, fica difícil alguém falar depois em uma conversa: “eu não disse isso” ou “não foi bem isso que eu quis dizer”. Antes mesmo da sua função legal, esse documento tem o papel de lembrar os envolvidos sobre aquilo que foi combinado e, por isso, deve ser muito bem redigido, lido, e conferido antes de ser assinado pelas partes. Isso separa o relacionamento de amizade do profissional e evitará, ou pelo menos diminuirá, muito os conflitos, discussões e até mesmo as brigas no futuro.  O apoio e as orientações de um advogado experiente são recomendados neste caso, e é claro que o acordo poderá ser alterado no futuro com o consentimento de todos.

O que deve conter o acordo de cotista

O mais importante é saber qual será o papel de cada um na sociedade. Não só o cargo, mas também as funções, ou seja, qual “chapéu” ou quais os “chapéus” que usarão. Quais serão suas responsabilidades e qual será a remuneração por esse trabalho. É importante separar bem a participação no lucro da empresa, que está relacionada com as cotas da sociedade, da remuneração pelas atividades. 

Outro item fundamental é com relação à saída de um dos sócios, a conhecida cláusula de exit. É importante combinar desde o início da sociedade como será a separação, ou seja, o que será feito se um dos sócios quiser deixar a empresa, ou, ainda mais grave, se um dos sócios quiser que o outro deixe a empresa.

Além de estipular o capital inicial, deve ser combinado em que situações poderão ser feitos aportes adicionais de dinheiro e como serão os procedimentos.

O documento deve indicar quem autoriza pagamentos e assina os cheques.

Cuidados adicionais devem ser tomados com relação a sócios investidores, que só entram com o capital no negócio.

Observação:

As sociedades de responsabilidade limitada correspondem a mais de 90% das sociedades (empresas com mais de um sócio) legalmente formalizadas no Brasil. Uma sociedade assim visa à proteção do patrimônio pessoal dos sócios, ou seja, se a sociedade não der certo ou tiver um insucesso comercial, os sócios responderão no limite do capital social pré-estabelecido em contrato. E, assim estará preservado o patrimônio pessoal de cada um dos sócios. No entanto, é preciso tomar cuidado para ter impostos e taxas pagos em dia e estar atento para não misturar dinheiro pessoal com o da pessoa jurídica. Se houver um insucesso e for constatada uma confusão patrimonial ou sonegação fiscal, o juiz poderá considerar que os bens pessoais foram adquiridos com o dinheiro da empresa, então cai por terra a responsabilidade limitada.

Considerações finais

Este artigo descreveu de forma introdutória e resumida informações importantes sobre a relação entre sócios, porém, conforme a introdução, na jornada empreendedora, existem muitas outras áreas do conhecimento a considerar na criação e gestão de uma empresa, assim espera-se que um potencial empreendedor ou sócio – busque pelo menos um mínimo de tais conhecimentos, além do apoio de mentores e advisors, para reduzir os riscos e incertezas que fazem parte de um negócio na prática.


Autor

Nei Grando – diretor executivo da STRATEGIUS, é consultor e palestrante em estratégia, inovação, transformação digital, organizações exponenciais e cidades inteligentes; pesquisador em inteligência artificial; conselheiro de empresas e mentor de startups. Autor do blog neigrando.com – Mestre em ciências pela FEA-USP, graduado em TI pela UEM, com MBA em Administração pela FGV e cursos de extensão em Estratégia e Gestão do Conhecimento (FGV) e Inovação e Redes Sociais (ESPM). Teve duas empresas de software e soluções de TI, onde conduziu o desenvolvimento de portais e plataformas digitais de negócios, internet-banking, home broker, CRM, GED, GC e outros. É o organizador e um dos autores do livro “Empreendedorismo inovador”, e autor em outros três. Como professor, ministrou as disciplinas de “Strategic Thinking” e “Planejamento Estratégico” em curso MBA da FIAP, “Intelligence Driven Decision” e “Fundamentos de Inteligência Artificial” em curso MBA da ESPM e como prof. convidado, no curso “Laboratório de Startups” do CIC-ESPM.

Notas

[1] SHUMPETER (1934)

[2]Veja mais sobre o Startup Genome Report 2011, resultante de pesquisa foi feita com mais de 660 empresas de TI para levantar características de Startups de sucesso, em:

[3] Segundo a Wikipidia: O perfeccionismo é um distúrbio neurótico no qual a pessoa tem um sentimento constante de insatisfação com seu desempenho e dúvidas sobre a qualidade de seu trabalho, o que leva o indivíduo a escrupulosidade, verificações de pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessivas prejudicando a sua pontualidade e eficiência.

[4] Esse acordo é similar ao Acordo de Acionistas utilizados pelas sociedades anônimas (S.A.). IBGC (2019), chama este documento de Acordo de Fundadores na fase pré-operacional e Acordo de Sócios após a empresa ser formalizada e operacional.

[5] Orientações para Elaboração de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/elaboracao_contrato.htm

Modelo de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/modelo_basico_contrato.htm

Referências

BENNETT, Nathan; LEMOINE, G. James. What a difference a word makes: Understanding threats to performance in a VUCA world. Business Horizons, v. 57, n. 3, p. 311-317, 2014.

BRASIL. Lei 6.404. Dispõe sobre as Sociedades por Ações. 15 dez. 1976. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6404consol.htm>. Acesso em: 20 abr. 2019.

FDC – Fundação Dom Cabral. Causa da mortalidade das startups brasileiras: como aumentar as chances de sobrevivência no mercado. 2012. Disponível em: < https://www.fdc.org.br/conhecimento/publicacoes/artigo-29767>. Acesso em: 20 abr. 2019.

GERBER, Scott. Nunca procure um emprego! Dispense o chefe e crie o seu próprio negócio sem ir à falência. São Paulo: Évora, cap.6, p.92-103, 2012.

GRANDO Nei. Só ou acompanhado? A escolha de sócios. In: GRANDO, Nei. (ORG). Empreendedorismo inovador: Como criar Startups de Tecnologia no Brasil. São Paulo: Évora, cap.4, p.54-72, 2012. 

IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Governança Corporativa para Startups & Scale-ups. São Paulo: IBGC, 2019.

SCHUMPETER, Joseph A. The theory of economic development: An inquiry into profits, capital, credit, interest, and the business cycle. Transaction publishers, v.55, 1934.

STARTUP COMMONS. “Startup Development Phases”. Disponível em: <http://www.startupcommons.org/startup-development-phases.html&gt;. Acesso em: 20 abr. 2019.

TRIAS DE BES, Fernando. O Livro Negro do Empreendedor: Depois não diga que não foi avisado. Rio de Janeiro: Best Seller, cap.6, p.56-61, 2008.

WELCH, Jack.  Paixão por Vencer. São Paulo: Campus, 2005

Artigos relacionados

Novidades em Inteligência Artificial, segundo o Gartner (2022)

As inovações de IA continuam a oferecer grandes benefícios aos negócios e as taxas de adoção vão acelerar nos próximos anos. Veja as perspectivas e o impacto.

Este é um artigo um tanto técnico, voltado para líderes e gestores organizacionais envolvidos com a área de Tecnologia da Informação (TI) e Inteligência Artificial (IA).

O Gartner Hype Cycle™ 2022 for Artificial Intelligence (AI) identifica inovações obrigatórias em tecnologia e técnicas de IA que vão além da IA ​​cotidiana que já está sendo usada para adicionar inteligência a aplicativos de negócios, dispositivos e ferramentas de produtividade anteriormente estáticos.

Notavelmente, o AI Hype Cycle está cheio de inovações que devem gerar benefícios altos ou mesmo transformacionais”, diz Afraz Jaffri, analista diretor do Gartner. “Preste atenção especial às inovações que devem atingir a adoção geral em dois a cinco anos, incluindo IA composta, inteligência de decisão e IA de ponta. A adoção antecipada dessas inovações pode gerar uma vantagem competitiva e valor comercial significativos e aliviar os problemas associados à fragilidade dos modelos de IA”.

As inovações de IA se dividem em quatro categorias

Espera-se que a ampla gama de inovações de IA impacte pessoas e processos dentro e fora de um contexto empresarial, tornando-os importantes para muitas partes interessadas, desde líderes de negócios até equipes de engenharia corporativas encarregadas de implantar e operacionalizar sistemas de IA.

Os líderes de dados e análises (D&A) têm mais a ganhar, no entanto, ao usar a perspectiva do Hype Cycle para elaborar suas estratégias de IA para o futuro e usar tecnologias que oferecem alto impacto no presente.

As inovações de IA no Hype Cycle refletem prioridades complementares e às vezes conflitantes em quatro categorias principais:

  • IA centrada em dados
  • IA centrada em modelos
  • IA centrada em aplicativos
  • IA centrada no ser humano

IA centrada em dados

A comunidade de IA tradicionalmente se concentra em melhorar os resultados das soluções de IA ajustando os próprios modelos de IA, mas a IA centrada em dados muda o foco para aprimorar e enriquecer os dados usados ​​para treinar os algoritmos.

Ao abordar as considerações de dados específicas de IA, a IA centrada em dados interrompe o gerenciamento de dados tradicional, mas as organizações que investem em IA em escala evoluirão para preservar ideias clássicas de gerenciamento de dados e ampliá-las para IA de duas maneiras:

  • Adicione recursos necessários para o desenvolvimento conveniente de IA por um público focado em IA que não está familiarizado com o gerenciamento de dados.
  • Use a IA para melhorar e aumentar os clássicos eternos de governança de dados, persistência, integração e qualidade de dados.

As inovações em IA centrada em dados incluem dados sintéticos, gráficos de conhecimento, rotulagem de dados e anotações.

Dados sintéticos, por exemplo, são uma classe de dados que são gerados artificialmente em vez de obtidos de observações diretas do mundo real. Os dados podem ser gerados usando diferentes métodos, como amostragem estatisticamente rigorosa de dados reais, abordagens semânticas e redes adversárias generativas ou criando cenários de simulação onde modelos e processos interagem para criar conjuntos de dados de eventos completamente novos.

A adoção está aumentando em vários setores, juntamente com o uso em aplicativos de visão computacional e linguagem natural, mas o Gartner prevê um aumento maciço na adoção de dados sintéticos:

  • Evita usar informações de identificação pessoal ao treinar modelos de machine learning (ML) por meio de variações sintéticas de dados originais ou substituição sintética de partes de dados
  • Reduz custos e economiza tempo no desenvolvimento de ML, pois é mais barato e mais rápido de obter
  • Melhora o desempenho de ML à medida que mais dados de treinamento levam a melhores resultados de treinamento

IA centrada em modelos

Apesar da mudança para uma abordagem centrada em dados, os modelos de IA ainda precisam de atenção para garantir que os resultados continuem a nos ajudar a tomar ações melhores. As inovações aqui incluem IA informada por física, IA composta, IA causal, IA generativa, modelos básicos e aprendizado profundo.

A IA composta refere-se à fusão de diferentes técnicas de IA para melhorar a eficiência do aprendizado e ampliar o nível de representações do conhecimento. Como nenhuma técnica de IA é uma solução mágica, a IA composta fornece uma plataforma para resolver uma ampla gama de problemas de negócios de maneira mais eficaz.

Espera-se que alcance a adoção geral em dois a cinco anos, os benefícios comerciais da IA ​​composta provavelmente serão transformacionais, permitindo novas maneiras de fazer negócios em todos os setores que resultarão em grandes mudanças na dinâmica do setor. Por exemplo, a IA composta:

  • Leva o poder da IA ​​a um grupo mais amplo de organizações que não têm acesso a grandes quantidades de dados históricos ou rotulados, mas têm experiência humana significativa
  • Ajuda a expandir o escopo e a qualidade dos aplicativos de IA (ou seja, mais tipos de desafios de raciocínio podem ser incorporados)

AI Causal inclui diferentes técnicas, como gráficos causais e simulação, que ajudam a descobrir relações causais para melhorar a tomada de decisões. Embora leve de 5 a 10 anos para que a IA causal alcance a adoção geral, espera-se que os benefícios de negócios sejam altos – permitindo novas maneiras de realizar processos horizontais ou verticais que resultarão em aumento significativo de receita ou economia de custos para uma empresa. Os benefícios causais da IA ​​incluem:

  • Eficiências ao adicionar conhecimento de domínio a modelos de IA causais de bootstrap com conjuntos de dados menores
  • Maior aumento de decisão e autonomia em sistemas de IA
  • Melhor explicabilidade ao capturar relações de causa e efeito fáceis de interpretar
  • Mais robustez e adaptabilidade ao alavancar relações causais que permanecem válidas em ambientes em mudança
  • Redução do viés nos sistemas de IA, tornando os vínculos causais mais explícitos

IA centrada em aplicativos

As inovações aqui incluem engenharia de IA, inteligência de decisão, sistemas operacionais de IA, ModelOps, serviços de IA em nuvem, robôs inteligentes, processamento de linguagem natural (NLP), veículos autônomos, aplicativos inteligentes e visão computacional.

Espera-se que a inteligência de decisão e a IA de ponta alcancem a adoção geral em dois a cinco anos e tenham benefícios comerciais transformacionais.

A inteligência de decisão é uma disciplina prática usada para melhorar a tomada de decisões ao entender e projetar explicitamente como as decisões são tomadas e como os resultados são avaliados, gerenciados e aprimorados por meio de feedback.

A inteligência de decisão ajuda a:

  • Reduzir a dívida técnica e aumentar a visibilidade e melhorar o impacto dos processos de negócios, aprimorando materialmente a sustentabilidade dos modelos de decisão das organizações com base no poder de sua relevância e na qualidade de sua transparência, tornando as decisões mais transparentes e auditáveis
  • Reduzir a imprevisibilidade dos resultados das decisões capturando e contabilizando adequadamente os fatores de incerteza no contexto de negócios e tornando os modelos de decisão mais resilientes

Edge AI refere-se ao uso de técnicas de IA incorporadas em terminais, gateways e servidores de borda da Internet das Coisas (IoT), em aplicativos que variam de veículos autônomos a análises de streaming. Os benefícios empresariais incluem:

  • Eficiência operacional aprimorada, como sistemas de inspeção visual de fabricação
  • Experiência aprimorada do cliente
  • Redução da latência na tomada de decisões, com o uso de análises locais
  • Redução de custos de conectividade, com menos tráfego de dados entre a borda e a nuvem
  • Disponibilidade de solução persistente, independentemente da conectividade de rede

IA centrada no ser humano

Esse grupo de inovações inclui confiança em IA, gerenciamento de risco e segurança (TRiSM), IA responsável, ética digital e kits de criação e ensino de IA.

Quando a IA substitui as decisões humanas, ela amplifica resultados bons e ruins. A IA responsável permite os resultados certos ao resolver dilemas enraizados na entrega de valor versus tolerar riscos. IA responsável é um termo abrangente para aspectos de fazer escolhas éticas apropriadas aos negócios ao adotar a IA, incluindo valor comercial e social, risco, confiança, transparência, justiça, mitigação de preconceitos, explicabilidade, responsabilidade, segurança, privacidade e conformidade regulatória. A IA responsável levará de 5 a 10 anos para alcançar a adoção geral, mas terá um impacto transformacional nos negócios.

A ética digital é uma tendência de curto prazo (dois a cinco anos) que provavelmente terá um alto impacto nos negócios. A ética digital compreende os sistemas de valores e princípios morais para a condução das interações eletrônicas entre pessoas, organizações e coisas. Essas questões, especialmente no que se refere à privacidade e preconceito, continuam sendo motivo de preocupação para muitos. As pessoas, cada vez mais conscientes de que suas informações são valiosas, ficam frustradas com a falta de transparência, uso indevido e violações. As organizações estão agindo para mitigar os riscos em torno do gerenciamento e da proteção de dados pessoais, enquanto os governos estão implementando uma legislação mais rígida.

Muitas organizações ainda ignoram a ética digital, porque acham que ela não se aplica ao seu setor ou domínio, mas o Gartner prevê que até 2024, 30% das grandes organizações usarão uma nova métrica de “voz da sociedade” para atuar em questões sociais e avaliar o impacto no desempenho de seus negócios. As organizações precisarão integrar a ética digital em suas estratégias de IA para reforçar sua influência e reputação entre clientes, funcionários, parceiros e sociedade.

Resumidamente

  • O Gartner Hype Cycle™ de 2022 para Inteligência Artificial apresenta inovações “imperdíveis” que devem gerar amplos benefícios para qualquer organização.
  • Essas inovações vão além das técnicas cotidianas de IA já usadas para adicionar inteligência a aplicativos de negócios, dispositivos e ferramentas de produtividade anteriormente estáticos.
  • Preste atenção antecipada às inovações que devem atingir a adoção geral em dois a cinco anos, incluindo IA composta, inteligência de decisão e IA de ponta.

Referência

Traduzido e levemente adaptado de What’s New in Artificial Intelligence from the 2022 Gartner Hype Cycle, by Jackie Wiles – Gartner, 2022.

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O papel da Inteligência Artificial no Metaverso

Ainda pode ser difícil criar máquinas com aparência humana que dominarão o mundo real. No entanto, em um mundo onde tudo é digital, não será difícil criar agentes auto-replicantes inteligentes que possam enviar e aprender com seu ambiente e evoluir para assumir seu ambiente. O metaverso fornecerá exatamente isso.

Décadas atrás, O Poderoso Chefão da IA, Marvin Minsky, introduziu o conceito da sociedade da mente, onde nossos processos cognitivos e arquitetura cognitiva não estão confinados a um lugar específico e não são processos isolados; são os comportamentos coletivos de muitos conceitos sutilmente arraigados de que nossas mentes são capazes. Obviamente, a inteligência, quando poluída com traços negativos como ganância, avareza e vingança, pode se tornar uma maldição para a humanidade.

Embora este não seja um conceito novo no domínio da IA, ele assume grande importância, uma vez que nossos cérebros são redes massivamente complexas de centenas de bilhões de neurônios que estão em constante comunicação uns com os outros. É o que ajuda os humanos a entender o que está acontecendo. Os neurônios começam a desencadear e responder a uma infinidade de reações em ritmo acelerado, estabelecendo padrões dentro do cérebro que posteriormente decidem o curso das ações a serem executadas por nossa mente e corpo em perfeito uníssono. Historicamente, os especialistas em IA tentaram replicar esse processo usando redes neurais artificiais (ANNs), mas isso é um mero truque baseado em software para simular o cérebro humano.

Mudanças e possibilidades

Agora tudo está mudando rapidamente à medida que o design do hardware está começando a fazer a transição, com o avanço da computação neuromórfica na qual as arquiteturas tradicionais de semicondutores estão sendo interrompidas e reprojetadas para imitar a estrutura do cérebro humano, onde o processamento e a memória estão sendo combinados em uma unidade, a estrutura neural que Marvin Minsky criou e muitas outras estruturas estão lentamente se tornando realidade do ponto de vista do hardware. Isso, por sua vez, já está tornando a IA mais rápida, melhor e mais geral. Isso é incrivelmente empolgante porque, se usado corretamente, produzirá aplicativos que são incrivelmente inteligentes e podem eventualmente substituir a inteligência geral em nível humano.

Isso é particularmente relevante para o metaverso, que não será apenas um lugar onde humanos usando avatares estão interagindo com outros humanos usando avatares em um espaço 3D virtual, mas será potencialmente o primeiro lugar e a chance onde agentes artificialmente inteligentes podem finalmente exibir um comportamento quase humano, sem as limitações físicas de construir um robô humanóide “real” no mundo real. Com os avanços na IA, e especificamente na computação neuromórfica, que está acelerando a abordagem da inteligência artificial geral (AGI), podemos testemunhar um metaverso em que uma IA é indistinguível de um humano!

A IA suprindo o Metaverso

A inteligência artificial é um dos pilares sobre os quais o metaverso está sendo construído. Começando com o processamento de dados gerados pelo usuário, continuando com modelos generativos de IA que criam ambientes virtuais fotorrealistas e avatares que se assemelham aos usuários, além da capacidade de reconhecer movimentos corporais e, assim, tornar a experiência do metaverso mais natural.

Mas a IA também dará nova vida aos personagens digitais que povoam os mundos virtuais, como personagens não humanos e assistentes pessoais, e permitirá que todos se entendam em seu próprio idioma traduzindo a fala simultaneamente.

Mas o que é Metaverso?

Podemos considerar o metaverso como uma série de ambientes digitais com vários níveis de imersão – desde um simples navegador ou smartphone, até ambientes de realidade totalmente virtual – permitindo a interação entre muitos usuários. O metaverso, no entanto é mais que um videogame multiusuário, pois assume um papel tão importante e envolvente para representar uma peça totalmente nova da existência humana ou, se preferir, uma camada digital que se sobrepõe e se interconecta com o físico.

Um dos elementos fundamentais desse novo ambiente serão as interações que teremos com outros usuários, o que nos levará a investir recursos – tempo, sim, mas também recursos financeiros – para melhorar nosso status e nossa experiência no mundo digital. Compraremos bens e serviços digitais, talvez na forma de NFTs, de empresas e outros usuários, alimentando uma economia paralela, mas interligada.

Poderemos assumir outras identidades além da física, que em alguns casos pode ser mais gratificante e envolvente do que a que já temos: pense no personagem de William Dafoe no filme eXistenZ, de 1999, que era um frentista no mundo da vida real, mas uma divindade na realidade digital. Na verdade, isso é algo que já vem acontecendo há anos com os MMORPGs, Massively Multiplayer Online Role-Playing Games, onde milhões de pessoas trocam suas roupas cotidianas para se tornarem magos, guerreiros, elfos, e onde muitos gastam uma fortuna comprando bens digitais e serviços que são úteis apenas para o jogo.

Casos de uso de IA para o metaverso

A inteligência artificial dará suporte fundamental ao metaverso, simplificando o acesso das pessoas aos ambientes digitais, além de auxiliar na geração de conteúdo e na interação entre humanos e mundos virtuais. Segue alguns dos casos de uso mais importantes.

Segurando tudo junto

Para o metaverso existir, servidores e sistemas de rede precisam estar funcionando. Como as empresas que hospedam MMORPGs (como World of Warcraft ou Elder Scrolls Online) estão bem cientes, executar uma infraestrutura que pode hospedar simultaneamente mais de meio milhão de usuários todos os dias requer esforços titânicos em termos de recursos computacionais.

É precisamente por isso que a Meta revelou recentemente o AI Research SuperCluster (RSC), um dos supercomputadores de IA mais poderosos do mundo. Conforme afirma a empresa, uma das tarefas do supercomputador será cuidar do metaverso, ou seja, manter os mundos digitais em funcionamento e hospedar as atividades de milhões de usuários, mesmo simultaneamente, sem lentidão ou problemas de recursos.

A inteligência artificial também será usada para escanear e processar em tempo real a enorme quantidade de dados produzidos a cada segundo pelas atividades dos usuários no metaverso da empresa, para viabilizar outros casos de uso.

Criando ambientes virtuais

Um mundo digital requer a presença de lugares digitais, como em quartos ou vilas ou colinas gramadas, para permitir que quem os ocupa naquele momento se movimente, interaja com o ambiente e realize as diversas atividades permitidas por aquele determinado lugar, seja ele seja uma sala de reuniões imersa em uma paisagem montanhosa, um cometa no espaço mais profundo ou uma reprodução de Minas Tirith. Mas enquanto no passado para a construção desses ambientes digitais tivemos que agradecer a equipes de desenvolvedores que criaram semi-manualmente cada peça, desde as colinas até o mar, colocando árvores ou móveis arrastando-os com o mouse, sem mencionar a criação se os pisos e objetos tiveram a colisão certa (quem não caiu pelo mundo por causa de uma colisão perdida em um ponto do mapa), amanhã será um modelo generativo de IA que criará tudo isso, com pouca intervenção humana.

Será capaz de criar ambientes que realmente existem no mundo físico, gerando com realismo impressionante a cena 3D a partir de fotografias, permitindo assim recriar com precisão qualquer lugar existente no mundo, do Coliseu aos jardins da Alhambra em Granada, para a varanda da nossa casa de praia.

A IA também será capaz de gerar lugares completamente inventados. Pode começar com algumas entradas de um desenvolvedor, mas então o aprendizado por reforço assumirá o controle e os algoritmos projetarão mais lugares que são cada vez mais confortáveis ​​​​ou agradáveis ​​​​para usuários humanos. A IA poderia analisar quais ambientes parecemos gostar mais, ou relaxar mais, extraindo suas características e continuar experimentando criando lugares ainda mais divertidos ou ainda mais relaxantes. Refinando a técnica a cada iteração até que as áreas perfeitas sejam criadas para nossas exigentes necessidades humanas.

Permitindo a você fazer seu próprio avatar

Embora no metaverso potencialmente ninguém saiba quem você é, haverá situações – como reuniões de negócios hospedadas no metaverso – em que se disfarçar atrás de um apelido e uma máscara de Salvador Dali pode não ser um comportamento comumente aceito. Nesses ambientes será necessário, e útil, estar presente não apenas com o nome real, mas também com um avatar que se pareça o máximo possível conosco. A inteligência artificial também pode ajudar aqui, com modelos que analisam nossas fotos e recriam um avatar 3D à nossa imagem e semelhança.

Mapeando os movimentos do corpo

Se você já passou algum tempo em Realidade Virtual (RV), sabe que as interfaces atuais não são as melhores. Isso perde o objetivo de manter as pessoas no metaverso pelo maior tempo possível ou fazer com que elas façam login com a maior frequência possível. Portanto, um objetivo é tornar as interações de RV mais naturais, permitindo que as pessoas realizem tarefas tão facilmente quanto pegar um objeto ou acenar com a mão. Para isso, a inteligência artificial verá os movimentos do nosso corpo, capturando-os através de sensores de diferentes tipos, transformando-os em ordens ou movimentos do avatar.

Levantar a mão para cumprimentar alguém deve ser tão simples quanto no mundo físico, sem segurar nenhum controle na mão, e abrir ou fechar um painel virtual deve ser fácil e imediato, com a IA interpretando corretamente todos os seus movimentos.

Mas o reconhecimento não para por aí. A IA também poderá copiar nossas expressões faciais no avatar, para que nosso sorriso também seja o sorriso do avatar, transferindo cada vez mais expressões – franzir a testa, bocejar, surpresa, piscar etc. – para nosso gêmeo digital, para fazer nossa transposição do mundo físico para o digital é o mais realista possível.

Dando vida aos habitantes digitais do metaverso

Em um mundo digital, precisamos de pessoas digitais. Como já sabemos, a inteligência artificial agora é capaz de realizar discussões, interpretar corretamente as entradas e produzir saídas adequadamente correlacionadas, dando a impressão de entender o que está sendo dito e poder responder. Essa capacidade, alcançada por meio de grandes modelos de linguagem, dos quais o GPT-3 é um exemplo entre muitos, pode ser incorporada aos diversos agentes digitais que povoarão o metaverso para produzir assistentes ou acompanhantes virtuais altamente realistas.

Nos jogos online, esses agentes são chamados de NPCs (Non-Playing Characters), ou seja, elementos que geralmente são graficamente semelhantes aos avatares dos usuários, mas estão lá apenas para realizar algumas tarefas simples, como iniciar uma missão, distribuir recompensas, fornecer informações ou fazer algo por razões estéticas (por exemplo, passear). Ao longo dos anos, alguns jogos fizeram com que esses agentes digitais assumissem tarefas um pouco mais complexas, como seguir o jogador em aventuras e lutar ao lado dele. Mesmo assim, esses ‘companheiros’ não mostram grandes sinais de inteligência.

No metaverso, graças à IA, esses NPCs ou assistentes pessoais assumirão um disfarce completamente novo, realizando ações “inteligentes” e tarefas muito mais complexas. Imagine um assistente digital ajudando usuários iniciantes a se movimentar e explorar o metaverso, reconhecendo seus erros e sugerindo maneiras de corrigi-los. Ou imagine uma secretária digital recebendo mensagens enquanto estamos em uma reunião no metaverso, notificando-as apenas quando a reunião terminar.

Como acontece com vários aplicativos de smartphone, vamos imaginar uma área do metaverso onde os personagens virtuais estão lá como amigos ou até companheiros, com quem conversar, contar nossos problemas ou com quem entreter uma ‘amizade romântica‘. Não vamos nos surpreender com isso: a capacidade da IA ​​de criar representações humanas fotorrealistas, juntamente com a capacidade de entreter conversas de profundidade particular, tornará o romance digital um “prazer culpado” mais difundido em um futuro não tão distante. O metaverso também pode hospedar isso.

Facilitando as traduções simultâneas

A tradução em tempo real é um dos casos de uso que dedicará parte de seu supercomputador especificamente para essa atividade. A ideia aqui é permitir que grupos de pessoas de diferentes países, cada um falando um idioma diferente, falem e se entendam em tempo real. Para isso, o modelo de inteligência artificial precisará primeiro reconhecer o idioma falado por um usuário, interpretar cada palavra e reconhecer o significado, traduzi-lo corretamente para o idioma falado pelo outro interlocutor e gerar o texto traduzido em formato de áudio, talvez com a mesma voz do primeiro interlocutor (um deepfake de áudio precisaria ser usado para simular a voz).

Tudo isso já é possível em teoria. Na prática, requer recursos massivos, especialmente se você quiser fazê-lo em tempo quase real e na escala que o metaverso exige. Mas a Meta já direciona recursos para lá há algum tempo. Em 2019 lançou o Wav2vec, para reconhecer estruturas de fala diretamente do áudio bruto sem a necessidade de texto transcrito. Em maio de 2021, demonstrou que o aprendizado de máquina não supervisionado poderia reconhecer a fala melhor do que outros métodos, enquanto em novembro do mesmo ano seu modelo de tradução multilíngue superou outros modelos bilíngues em uma competição de tradução automática.

Agora sabemos que todos esses esforços de pesquisa, que começaram anos atrás, tinham como objetivo encontrar uma maneira de pessoas de diferentes países falarem juntas em suas línguas nativas, e que melhor caso de uso do que o metaverso para colocar esse projeto em prática.

Provendo algoritmos que aumentam o engajamento e a presença

Mesmo no metaverso, métricas como engajamento, tempo de atividade, frequência de login e assim por diante serão cruciais para empresas que hospedam ambientes e conteúdos digitais. Assim como todas as redes sociais hoje estão pressionando para nos manter o maior tempo possível em seus sistemas, o metaverso também apresentará algoritmos de recomendação e seleção de conteúdo que farão tudo ao seu alcance para nos mostrar o que mais nos interessa.

Esta é uma situação muito familiar: quando estamos entediados já entramos nas redes sociais para ver o que está acontecendo, para ler algo novo, para conversar com nossos contatos ou – mais frequentemente – porque alguma notificação nos incitou a fazê-lo. E quando abrimos o aplicativo ou o site, vários algoritmos estão em ação para nos impedir de nos desconectarmos muito rapidamente.

O mesmo se aplicará ao metaverso, apenas intensificado pelo fato de entrarmos em um ambiente imersivo, onde os algoritmos se beneficiarão de um maior grau de atenção de nós, pois alguns de nossos sentidos mais importantes (visão, audição e até tato) serão ser totalmente abandonado à experiência imersiva. Os modelos de IA serão capazes de cercar nossos sentidos, provocar nosso interesse e, finalmente, capturar nossa atenção com muito mais eficácia do que uma simples tela de smartphone.

Se você passa algum tempo em realidade virtual, pode estar acostumado ao fato de que uma hora parece passar mais rapidamente, não fosse pelos dispositivos de RV de hoje que ainda são muito volumosos e pesados ​​no rosto. Quando for fisicamente mais fácil mergulhar no metaverso, e quando os desajeitados sistemas que regulam os conteúdos forem mais sofisticados e inteligentes, desengajar-se dessa nova existência digital certamente se tornará mais difícil. A IA, infelizmente, será mais uma arma que as empresas usarão para nos convencer a nos mantermos conectados o máximo possível. Para piorar, já se acredita que o metaverso será um lugar cheio de marketing e manipulação.

Moderando e identificando comportamento prejudicial

Como já relatado em algumas notícias, o metaverso não está livre de problemas tipicamente humanos, como assédio ou bullying. Esses são desafios que todas as plataformas precisam enfrentar, pois não querem que seu projeto grandioso seja arruinado pelo assediador ao lado.

A inteligência artificial já ajuda os moderadores humanos a interceptar e examinar comportamentos suspeitos; no metaverso, esses controles só aumentarão. Não esqueçamos que na realidade virtual cada movimento do nosso avatar pode ser facilmente registrado e documentado, assim como cada palavra que dizemos ou ouvimos. À medida que a imersão e a sofisticação dos dispositivos aumentam – pense nos rastreadores corporais aos quais nos referimos anteriormente – os pontos de dados que podem ser interceptados e analisados ​​pela IA só aumentarão.

Com essa quantidade de informações, não seria impossível criar modelos que calculassem a probabilidade de que o assédio esteja acontecendo (ou esteja prestes a acontecer). Se houvesse dados suficientes, bastaria analisar todos os comportamentos ocorridos antes, durante e após as denúncias de assédio para criar um modelo que pudesse reconhecê-los ou predizê-los com boa precisão.

Um sistema, hipotético no momento, que seria potencialmente muito útil para permitir que todos usufruíssem de uma experiência digital sem perturbações ou ofensas, mas que também levanta várias questões, como o grau de intrusão que estamos dispostos a permitir nas nossas interações digitais privadas.

Considerações Finais

O metaverso veio para ficar, está apenas nascendo e tem muito a ser feito para o melhor aproveitamento de todos, seja pelas empresas que estão envolvidas nos projetos, seja pelas marcas estão divulgando e vendendo produtos e serviços nesse novo canal de mídia digital, seja com os usuários aprendendo, jogando, se divertindo e até mesmo trabalhando nesse novo ambiente. E a inteligência artificial é um pilar fundamental para sustentação de tudo isso, somado à segurança digital e outras tecnologias.

Referências

Observação: a maioria do texto deste artigo, trata-se de uma tradução e adaptação destes posts:

  • How will AI power the metaverse?, by Luca Sambucci – Feb., 2022 (Artificial Intelligence News)
  • Will artificial intelligence dominate the metaverse?, by Jun, 2021 (LinkedIn)
  • Artificial Intelligence in the Metaverse: Bridging the Virtual and Real, dez/2021 (XR Today)

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