Entendendo a Web3 e a Economia de Tokens

“Web3, uma nova iteração da World Wide Web baseada na tecnologia blockchain, que incorpora conceitos como descentralização e economia baseada em tokens, ou ainda, um ecossistema online descentralizado habilitado pela tecnologia blockchain, que conecta pessoas, lugares e coisas, sejam elas físicas ou digitais. A promessa é de uma internet centrada no usuário, interoperável, transparente e segura que pode criar novas economias, novas classes de produtos e novos serviços.”

1. O básico da Economia de Tokens

1.1 Uma nova Web surgindo: Web3

Enquanto o Web2 foi uma revolução de front-end – cuja interface com o usuário permitia somente navegação e leitura/escrita como em sites de e-commerce e mídia social, a Web3 é uma revolução de back-end –  que introduz uma camada de estado universal. É um conjunto de protocolos liderados pela blockchain, que pretendem reinventar a forma como a Internet é conectada no back-end, combinando a lógica da Internet com a lógica do computador.

A Internet que usamos hoje armazena e gerencia dados em servidores de instituições confiáveis. Na Web3, os dados são armazenados em várias cópias de uma rede P2P (par-a-par ou ponto-a-ponto), e as regras de gerenciamento são formalizadas no protocolo e garantidas pelo consenso da maioria de todos os participantes da rede, muitas vezes (mas nem sempre) incentivados com um token (que representa um ativo ou direito de acesso) de rede para suas atividades.

Ao contrário dos aplicativos centralizados executados em um único computador, os aplicativos descentralizados (Dapps) são executados em uma rede P2P de computadores. Eles existem desde o advento das redes P2P. Os aplicativos descentralizados não precisam necessariamente ser executados em uma blockchain.

Tanto a criptomoeda Bitcoin como a tecnologia blockchain subjacente não surgiram do nada. Elas estão enraizadas no início da história do computador e da Internet, construídas em décadas de pesquisa sobre redes de computadores, criptografia e teoria dos jogos.

1.2 Segurança dos Tokens: Criptografia

Criptografia é a prática e o estudo da comunicação segura na presença de terceiros. O objetivo é criar sistemas de informação que sejam resilientes contra espionagem, manipulação e outras formas de ataque.

A criptografia em blockchain é usada para identificar com confiança todos os atores da rede e permite a transparência das interações, mantendo a privacidade de todos os atores da rede.

A criptografia de chave pública é usada para provar a identidade de alguém com um conjunto de chaves criptográficas: uma chave privada e uma chave pública, que em combinação com uma transação cria nossa assinatura digital. Essa assinatura digital prova a propriedade de nossos tokens (criptomoedas ou outros ativos digitais) e nos permite controlá-los por meio de um software chamado “carteira” (wallet).

Semelhante a uma assinatura manuscrita, uma assinatura digital é usada para verificar se você é quem diz ser. Na blockchain do Bitcoin e em outras como a do Ethereum, as assinaturas digitais são funções matemáticas que fazem referência a um endereço de carteira específico que gerencia seus tokens em uma blockchain.

Uma função de hash é um algoritmo matemático que pode pegar qualquer tipo de entrada, como um texto (string), um arquivo de texto ou um arquivo de imagem, e o compila em uma string de saída de tamanho fixo chamada hash. É uma função unidirecional, o que significa que a única maneira de recriar os dados de entrada originais (mensagem) do hash é tentar todas as entradas possíveis para ver se elas produzem uma correspondência. Embora isso seja possível, é demorado e, portanto, caro.

Proof-of-Work” é o mecanismo de consenso usado na Rede Bitcoin para garantir que as transações enviadas pela rede sejam válidas. O objetivo desse mecanismo é evitar o gasto duplo de tokens e ataques ao sistema, assumindo que todos os atores da rede podem ser potencialmente corruptos. Os hashes são usados ​​para criar um quebra-cabeça matemático, que os atores da rede (nodes) precisam resolver para criar um bloco de transações verificadas. Esse processo é chamado de “mineração” e os “nós de mineração” precisam competir entre si para gerar um bloco válido de transações. Eles precisam realizar um trabalho computacional para resolver o quebra-cabeça, e é por isso que esse processo é chamado de “prova de trabalho”.

1.3 Bitcoin, Blockchain e outros: Gestão de Tokens

Blockchain é um livro-razão compartilhado e distribuído onde cópias imutáveis ​​e criptografadas das informações que são armazenadas em diversos computadores (nodes) da rede. Tais informações neste livro-razão geralmente consistem de blocos de registros de transações feitas. Qualquer registro envolvido não pode ser alterado retroativamente, sem a alteração de todos os blocos subsequentes.

Todos os participantes (nodes) da rede têm acesso igual aos mesmos dados em tempo real. As transações executadas na rede são transparentes para todos os atores e podem ser rastreadas até sua origem.

O livro razão, armazenado em todos os computadores da rede P2P, garante que cada unidade de valor seja transferida apenas uma vez. Ele atua como um notário digital e um carimbo de data/hora publicamente verificável.

Ao contrário dos bancos de dados distribuídos, as blockchains permitem o controle distribuído, onde diferentes partes que não confiam umas nas outras podem compartilhar informações sem a necessidade de um administrador diferente.

Isso permite que contratos inteligentes imponham lógica de negócios e regras de governança por meio de consenso e podem ser vistos como o próximo nível de automação.

Blockchain baseia-se na ideia de redes P2P e fornece um conjunto de dados universal em que todos os atores podem confiar, mesmo que não se conheçam ou não confiem uns nos outros. Pessoas e instituições que não se conhecem ou confiam umas nas outras e que residem em países diferentes, sujeitas a diferentes jurisdições e que não possuem acordos juridicamente vinculativos entre si, agora podem interagir pela Internet sem a necessidade de terceiros confiáveis, como bancos, plataformas de Internet ou outros tipos de instituições de compensação.

Ideias em torno de redes P2P seguras por criptografia têm sido discutidas no meio acadêmico em diferentes estágios evolutivos desde a década de 1980. No entanto, antes do surgimento do Bitcoin, nunca houve uma implementação prática de uma rede P2P que conseguisse evitar o problema do gasto duplo, sem a necessidade de intermediários confiáveis ​​garantindo a troca de valor.

O “problema do gasto duplo” refere-se ao fato de que na Internet atual, o dinheiro digital, na forma de um arquivo, pode ser copiado, e cópias desse mesmo arquivo digital poderiam ser enviadas de um computador para vários outros computadores ao mesmo tempo.

Mecanismos de consenso, como “prova de trabalho“, permitem o controle distribuído. Eles são baseados na combinação de incentivos econômicos e criptografia. A teoria dos jogos aplicada é usada para recompensar os atores da rede com um token de rede nativo. Este mecanismo de recompensa é projetado de forma que seja economicamente inviável enganar a rede. Isso torna extremamente difícil falsificar o blockchain, devido à imensa quantidade de poder de computação que seria necessário para fazê-lo. Ao contrário de blockchains públicos e sem permissão, em blockchains com permissão, todos validadores são membros de um consórcio.

A tecnologia de livro-razão distribuído (DLT) surgiu como um termo abrangente usado para descrever tecnologias que distribuem registros ou informações entre todos aqueles que os utilizam, seja de forma privada ou publicamente.

2. Contratos Inteligentes e Redes Tokenizadas

2.1 Contratos Inteligentes

Um contrato inteligente é um software autoaplicável gerenciado por uma rede P2P de computadores. Contratos inteligentes fornecem uma estrutura de coordenação e execução de acordos entre os participantes da rede, sem a necessidade de contratos legais tradicionais. Eles podem formalizar as relações entre pessoas e instituições e os bens que possuem pela Internet, sem a necessidade de intermediários confiáveis.

O termo “contrato inteligente” foi cunhado pela primeira vez por Nick Szabo em 1996 e precede o desenvolvimento de blockchains. Ainda era o início da Web quando Szabo apontou que a revolução digital não apenas criaria novas instituições, mas também formalizaria as relações econômicas e sociais.

Casos de uso de contratos inteligentes variam de simples a complexos. Eles podem ser usados ​​para transações econômicas simples, como enviar dinheiro de A para B, registrar qualquer tipo de propriedade e direitos de propriedade, como registros de imóveis e propriedade intelectual, ou gerenciar o controle de acesso inteligente para a economia compartilhada. A forma mais complexa de um contrato inteligente é uma organização autônoma descentralizada (DAO). Os contratos inteligentes também podem ser usados ​​para criar tokens.

Os contratos inteligentes têm o potencial disruptivo em muitos setores. Os casos de uso podem ser encontrados em bancos, seguros, energia, governo eletrônico, telecomunicações, indústria musical e cinematográfica, artes plásticas, mobilidade, educação e muito mais.

Oráculos são serviços de software que localizam e verificam ocorrências do mundo real e submetem essas informações a um contratos inteligentes, acionando automaticamente mudanças de estado na blockchain. A principal tarefa dos oráculos é fornecer esses valores ao contrato inteligente de maneira segura e confiável. Esses fluxos de dados são provenientes de software (aplicativo de Big Data) ou de hardware (Internet das Coisas).

2.2 Economia Institucional das Redes Tokenizadas

Blockchain e contratos inteligentes são tecnologias de governança que podem minimizar os dilemas existentes principal-agente das organizações e os riscos morais subsequentes. Os tokens de redes distribuídas fornecem uma nova forma de incentivos para alinhar interesses automaticamente na ausência de terceiros.

Dilemas principal-agente ocorrem quando o agente de uma organização tem o poder de tomar decisões em nome ou impactar o principal – outra pessoa ou entidade na organização. Exemplos disso podem ser administradores que atuam em nome de acionistas ou políticos que atuam em nome de cidadãos. Em tais configurações, o risco moral ocorre quando uma pessoa assume mais riscos do que normalmente faria, porque outra pessoa arca com o custo desses riscos. Esse dilema geralmente aumenta quando há uma assimetria de informação subjacente em jogo.

Governança refere-se às regras, normas e ações de como as pessoas interagem dentro de uma comunidade ou organização por meio de leis, normas, força ou linguagem. As regras de governança de uma organização ou grupo de pessoas passam a regular o processo de tomada de decisão entre todas as partes interessadas envolvidas.

As redes tokenizadas podem interromper as estruturas de governança tradicionais e desafiar as formas atuais de como a sociedade se organiza. Elas prometem uma coordenação mais descentralizada e espontânea pela Internet entre usuários que não se conhecem ou não confiam uns nos outros, geralmente chamadas de organizações descentralizadas autônomas (DAOs).

Desde o surgimento da Internet, surgiu uma vasta gama de tribos distribuídas da Internet, que culmina nas plataformas de mídia social de hoje. As redes tokenizadas da Web3 introduzem uma nova camada de governança, com a DAO como um novo organismo social para a Internet. Redes descentralizadas autônomas representam organismos vivos dinâmicos governados por protocolos executáveis ​​por máquinas.

Uma DAO pode ser formalizado por um contrato inteligente. Os casos de uso variam de simples a complexos. A complexidade depende do número de partes interessadas, bem como do número e complexidade dos processos dentro dessa organização que serão regidos pelo contrato inteligente. Dependendo do propósito e das regras de governança da organização, esses casos de uso podem se assemelhar a empresas ou nações.

Os protocolos Blockchain são comparáveis ​​à constituição e às leis governamentais dos estados-nação. Semelhante a uma rede blockchain pública e sem permissão, os estados-nação também têm um código, a constituição, que é pública e de código aberto. A diferença significativa é que as redes tokenizadas são autoaplicáveis.

2.3 Governança e Redes Tokenizadas

A governança no contexto de uma rede tokenizada como uma blockchain pública refere-se ao processo de obtenção de consenso social sobre a evolução do protocolo.

O consenso em torno de atualizações de protocolo pode ocorrer off-chain ou on-chain.

Os primeiros protocolos Blockchain, como Bitcoin e Ethereum, dependem de uma suposição simplista de “código é lei” e têm um governo social bastante espontâneo e não bem institucionalizada camada de governança que acontece “fora da cadeia“. Vários projetos de blockchain mais recentes introduziram vários modelos de “governança on-chain“, onde os mecanismos de governança são uma parte integral do protocolo.

Dependendo do protocolo, existem certas verificações e balanços em vigor, onde mineradores e detentores de tokens que executam nós completos podem adotar ou não as alterações propostas. As partes interessadas em uma rede tokenizada podem ser resumidas como (1) mineradores, (II) desenvolvedores, (III) usuários executando nós completos, (IV) usuários que não executam nós completos e (V) o ecossistema de negócios que pode atuar como um formador de mercado como corretoras, comerciantes, etc.

A questão de quanta coordenação pode ser feita “on-chain” versus “off-chain” não está resolvida. A questão não é qual abordagem é melhor, mas como podemos aplicar de forma significativa uma combinação de ambas as abordagens para resolver o processo de tomada de decisão em grandes ambientes multistakeholder. Supõe-se que uma certa quantidade de coordenação on-chain torna a coordenação global mais fácil, mas não resolve o fator humano.

3. Economia de Tokens

3.1 Tokens

Tokens criptográficos referem-se a ativos ou direitos de acesso, gerenciados por um contrato inteligente e um livro-razão distribuído (DLT) subjacente. Eles são acessíveis apenas pela pessoa que possui a chave privada desse endereço e só podem ser assinados usando essa chave privada.

Tokens podem representar qualquer coisa, desde uma reserva de valor até um conjunto de permissões no mundo físico, digital e jurídico. Eles facilitam a colaboração entre mercados e jurisdições e permitem uma interação mais transparente, eficiente e justa entre os participantes do mercado, a custos baixos. Os tokens também podem incentivar um grupo autônomo de pessoas a contribuir individualmente para um objetivo coletivo. Esses tokens são criados mediante a comprovação de um determinado comportamento.

Tokens não são uma coisa nova e existem desde muito antes do surgimento do blockchain. Tradicionalmente, os tokens podem representar qualquer forma de valor econômico. Os tokens também são usados ​​na computação, onde podem representar um direito de realizar alguma operação ou gerenciar direitos de acesso. Uma forma mais tangível de tokens de computador são os códigos de rastreamento que você obtém para rastrear sua encomenda com serviços postais ou QRcodes (tickets) que fornecem acesso a um trem ou avião.

O termo “token” é simplesmente uma metáfora. Ao contrário do que a metáfora pode sugerir um token não representa um arquivo digital que é enviado de um dispositivo para outro. Ao invés disso, refere-se a ativos e/ou direitos de acesso que são gerenciados coletivamente por uma rede de computadores, uma rede blockchain ou outro livro-razão distribuído.

Os tokens criptográficos representam um conjunto de regras, codificadas em um contrato inteligente – o contrato token. Cada token pertence a um endereço blockchain. Esses tokens são acessíveis por meio de um software, uma carteira que se comunica com o blockchain e gerencia o par de chaves público-privadas relacionadas ao endereço do blockchain. Somente a pessoa que possui a chave privada desse endereço pode acessar os respectivos tokens.

Essa pessoa pode ser considerada o proprietário ou guardião desses tokens. O proprietário pode iniciar a transferência do ativo assinando com sua chave privada, que por sua vez gera uma assinatura digital. Quem perder a chave privada, perderá o acesso aos seus fundos.

A identificação de diferentes propriedades de um token pode ser usada como uma primeira etapa para ajustar uma estrutura de classificação futura e também usada para técnicas de modelagem ao desenvolver o token. As perspectivas mais importantes das quais podemos deduzir as propriedades de um token são: (1) técnica; (11) dos direitos; (III) da fungibilidade (IV) da transferibilidade; (V) de durabilidade; (VI) regulatória (VII) de incentivo; (VIII) da oferta; e (IX) de fluxo de token.

Embora muitos tokens emitidos nos primeiros anos de blockchains e vendas de tokens representassem tokens fungíveis, temos os tokens não fungíveis (NFTs) muito diversificados que podem exceder em muito o impacto dos tokens nativos de blockchain ou outros tokens fungíveis.

Enquanto os tokens fungíveis são idênticos e intercambiáveis (exemplo: criptomoedas), os tokens não fungíveis são únicos por natureza (exemplo: representações digitais de obras de arte), com propriedades variadas que podem ser distinguidas umas das outras.

3.2 O Futuro do Dinheiro

Em uma economia de mercado baseada na divisão do trabalho e dinheiro emitido por órgãos governamentais, o papel do dinheiro é facilitar a troca de bens e serviços. Isso torna a troca econômica muito mais eficiente do que as economias de troca, evitando ineficiências de tais sistemas, como o problema da “coincidência de desejos”

O dinheiro provou ser uma tecnologia eficiente para intermediar a troca de bens e serviços, fornecendo uma ferramenta para comparar valores de objetos diferentes. Tem diferentes funções e propriedades: (1) meio de troca; (II) medida de valor e unidade de conta em que a dívida pode ser denominada; e como (III) reserva de valor.

Para cumprir suas várias funções, o dinheiro deve ter certas propriedades, que incluem (I) liquidez, (II) fungibilidade, (III) durabilidade, (IV) portabilidade, (V) cognoscibilidade e (VI) estabilidade. Ele também precisa de algumas (VII) medidas incorporadas para evitar a falsificação.

Nas economias modernas, o tipo de dinheiro dominante é a chamada (I) moeda fiduciária. Prévio à existência de moedas fiduciárias modernas, tínhamos (II) moeda-mercadoria e (III) dinheiro representativo.

Embora o Bitcoin tenha sido originalmente projetado com o objetivo de criar dinheiro P2P sem bancos, a tecnologia blockchain subjacente que faz isso acontecer provou ser uma porta de entrada para um novo tipo de criação de valor econômico. Incentiva contribuições individuais para um objetivo público: uma rede de pagamento P2P. É um token e uma rede de pagamento.

Tokens de protocolo como Bitcoin ou Ether são necessários para pagar transações em suas respectivas redes. Eles representam o “curso legal” da rede, necessário para pagar pelos serviços de rede. A remessa P2P é a infraestrutura pública que a Rede Bitcoin fornece. As taxas de transação para essas remessas precisam ser pagas com tokens BTC. A computação P2P é a infraestrutura pública que a Rede Ethereum fornece. As taxas de transação para cálculo de contratos inteligentes precisam ser pagas com o token nativo, ETH. O armazenamento de arquivos P2P é a infraestrutura pública que, por exemplo, a Rede Sia oferece. As taxas de transação para serviços de armazenamento de arquivos precisam ser pagas com o token nativo, SIA ou outro token de serviços de armazenamento.

Atualmente, a maioria dos tokens não cumpre uma das propriedades mais importantes do dinheiro: estabilidade de valor e, até certo ponto, fungibilidade. A usabilidade também é um problema como uma barreira de entrada para a potencial adoção em massa, pois ainda há muitos problemas em relação à escalabilidade da infraestrutura de blockchain e usabilidade da carteira. Sem melhor usabilidade, os tokens não podem cumprir seu papel como um meio de troca amplamente aceito.

3.3 Tokens Estáveis

A estabilidade do valor é uma das funções mais importantes do dinheiro para servir como meio de troca. O objetivo dos tokens estáveis ​​é fornecer uma reserva de valor, unidade de troca e unidade de conta representada por um token criptográfico, que mantém um valor estável em relação a um preço-alvo, como EUR, USD ou Real.

O objetivo do Bitcoin era criar dinheiro eletrônico P2P. Enquanto o protocolo subjacente introduziu um algoritmo de consenso inovador, o protocolo define apenas uma política monetária que simplesmente regula e limita a quantidade de tokens cunhados ao longo do tempo. O protocolo não fornece um algoritmo econômico sofisticado que garanta a estabilidade de preços.

Assim como desenvolver um algoritmo de consenso seguro exigiu décadas de pesquisa e desenvolvimento, uma quantidade equivalente de rigor acadêmico é necessária quando se trata de desenvolver aspectos de política monetária de dinheiro eletrônico P2P. No entanto, não há necessidade de reinventar a roda. Há muito que se pode aprender com a macroeconomia e décadas de experiência com políticas monetárias definidas por governos e bancos centrais tentando alcançar a estabilidade da moeda – tanto o que fazer quanto o que não fazer.

Tokens de protocolo de última geração são impraticáveis ​​para pagamentos do dia a dia. Sem um meio de troca estável que possa ser gerenciado pelo blockchain subjacente, nenhuma parte de um contrato inteligente pode confiar no preço denominado de um determinado token. Essa falta de estabilidade de preços levou ao surgimento de tokens estáveis ​​nos últimos anos. Seu objetivo é remover a extrema volatilidade dos preços para abrir caminho para o uso comercial de tokens.

Tokens estáveis ​​são blocos de construção indispensáveis ​​para uma economia próspera de tokens; de outra forma, contratos inteligentes e aplicativos descentralizados continuarão sendo fenômenos marginais, pois representam um alto risco para ambas as partes de um contrato inteligente, o comprador e o vendedor. As empresas provavelmente não aceitarão tokens em grande escala, se seu valor puder cair drasticamente em um curto período de tempo. Elas precisariam cobrir deltas de preços enquanto os pagamentos estão sendo processados. Salários ou quaisquer outros pagamentos recorrentes, como aluguel, pagamentos de serviços públicos etc., não podem ser denominados ou planejados de forma confiável com tokens instáveis.

Tipos de tokens estáveis: (1) tokens estáveis ​​garantidos por ativos; (II) tokens estáveis ​​garantidos ou (III) Ações de senhoriagem.

3.4 Tokens de Negociação, Trocas Atômicas e DEX

Enquanto blockchains e outros ledgers distribuídos permitem a transferência de tokens com intermediários, eles permitem apenas a remessa P2P de seus próprios tokens. Como os tokens criam apenas um blockchain específico, esses tokens não podem se mover entre as redes por motivos de interoperabilidade. A compra e venda de tokens ainda requer provedores de serviços centralizados.

As corretoras online oferecem serviços para quem deseja comprar e vender tokens. Elas agem como intermediários confiáveis e parecem ter se tornado os novos portais que decidem quais tokens são negociados e quais não. 

As corretoras atuam como formadoras de mercado. Elas influenciam o destino de um token decidindo em incluí-los ou não.

A maioria das corretoras hoje são centralizadas (CEX), o que significa que elas atuam como intermediárias entre compradores e vendedores de tokens. Elas permitem a compra e venda simples de tokens, também contra moedas fiduciárias, e fornecem fácil criação de carteira e gerenciamento de contas, incluindo a proteção de chaves privadas.

Cuidado! As corretoras centralizadas são um serviço importante nesta nova economia de tokens, mas têm pontos únicos de falha, sendo vulneráveis ​​a hack, má administração, volatilidade de volume ou censura. 

A interoperabilidade geral do blockchain pode ser uma solução para esse problema. trocas (swaps) atômicas são outra solução, com viabilidade mais imediata.

As swaps atômicas permitem a negociação entre cadeias P2P e podem ser executados diretamente entre blockchains separados, de carteira para carteira, sem um intermediário confiável como as corretoras. Eles usam um tipo de contrato inteligente chamado HTLC (hash time-locked contract) para proteger a transação, certificando-se de que ambas as partes da negociação cumpram os requisitos da transação.

As trocas atômicas não resolvem o problema da “coincidência de desejos“. Elas beneficiarão apenas as pessoas que conhecem outra pessoa que está disposta a comprar a quantidade exata de tokens que você está vendendo, pela quantidade exata de tokens que deseja comprar, exatamente ao mesmo tempo. A probabilidade de isso acontecer para investidores de varejo é bastante baixa. As trocas descentralizadas, no entanto, poderiam resolver ambos os problemas.

Corretoras descentralizadas (DEX) são aplicativos descentralizados executados em um livro-razão distribuído, onde as pessoas que desejam trocar tokens podem postar os tokens que desejam vender, contra tokens que outros desejam vender. Elas tentam combater todas as desvantagens das corretoras centralizadas, mantendo-se fiéis à ideologia descentralizada da Web3. Isso permitiria que estranhos trocassem tokens sem a necessidade de uma autoridade central nos assentamentos.

Uma corretora totalmente descentralizada faria uso de trocas atômicas ou tecnologia semelhante, com uma camada de descoberta adicional que permite a negociação entre dois proprietários de tokens casuais que não se conhecem e, de outra forma, não saberiam como se encontrar. No entanto, a maioria das corretoras autoproclamadas descentralizadas está longe de ser totalmente descentralizada.

Considerações Finais

A economia de tokens é uma realidade que tem acontecido e evoluído muito rapidamente, ela faz parte de uma rede descentralizada P2P suportada por blockchain e outras tecnologias. Ela possibilita junto com contratos inteligentes, aplicações descentralizadas, e outros recursos uma nova Web, conhecida como Web3, mais segura, mais confiável e mais focada nos indivíduos.

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Sobre mim: aqui. Contato: aqui.

Abraços, @neigrando

Referência

O texto deste artigo trata-se de uma tradução adaptada dos resumos dos capítulos do livro “Token Economy: How Blockchain and Smart Contracts Revolutionize the Economy” de Shermin Voshmgir, 2019.

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DeepTech – Ciência e Tecnologia a serviço da Inovação e Negócios

Depois de ter empreendido em duas empresas de tecnologia, ao longo dos últimos 12 anos tenho contribuído com o ecossistema brasileiro de startups de diversas formas: participando como convidado em eventos, organizando o livro “Empreendedorismo Inovador: Como criar startups de tecnologia no Brasil”, provendo mentoria e consultoria de negócios para dezenas de startups e empresas, participando de outros livros e postando artigos neste blog.

No recente evento DeepCamp do IPT em parceria com o SEBRAE,  a convite de Luciano Avallone, participei do painel sobre Modelos de Negócio DeepTech, moderado por Tatyane Sales num bate-papo junto com Jorge Pacheco (STATE) e Paula Lima (CIETEC).

No painel conversamos desde Proposição de Valor e outros elementos importantes a serem considerados em um modelo de negócios DeepTech, até questões sobre investimentos, laboratórios, inovação aberta na conexão de startups com empresas, propriedade intelectual (patente), licenciamento/transferência de tecnologia e legalização junto aos órgãos regulamentadores.

Este post é dedicado a cientistas, engenheiros, designers, empreendedores e investidores envolvidos com negócios DeepTech, bem como aos que administram laboratórios científicos/técnicos e incubadoras de empresas.

Image: Particle spin occurs in the subatomic world where the laws of quantum physics apply (*1)

O que é DeepTech?

O termo DeepTech, refere-se às startups cujo modelo de negócios é baseado em inovação de alta tecnologia em engenharia ou avanços científicos significativos. Envolve o aproveitamento de tecnologias maduras e emergentes para resolver os maiores problemas que o mundo enfrenta hoje, ao mesmo tempo em atua com objetivos de negócios arrojados e revigora cadeias de valor.

Deeptechs pesquisam, desenvolvem e implantam tecnologias de grande impacto e alto capital, como inteligência artificial, biologia sintética, computação quântica e realidade aumentada.

As tecnologias emergentes são muito promissoras, mas sem uma maneira de focar a tecnologia certa nos desafios mais urgentes, as empresas não podem obter todo o seu valor.

Vale observar que não existe uma tal “tecnologia profunda”, DeepTech trata-se uma abordagem habilitada pela orientação a problemas e a convergência de abordagens e tecnologias, impulsionada pelo ciclo de design-construção-teste-aprendizagem (DBTL – Design-Build-Test-Learn).

Como observou Clayton Christensen, que desenvolveu a teoria da tecnologia disruptiva, poucas tecnologias são intrinsecamente disruptivas ou sustentáveis em si mesmas; em vez disso, a solução e o modelo de negócios construído em torno ou por meio das tecnologias são disruptivos. A mesma ideia se aplica à DeepTech.

As DeepTechs questionam barreiras básicas, obstáculos e pontos cegos na abordagem atual para a solução de problemas. Elas contam com tecnologias emergentes enraizadas na ciência e engenharia avançada que oferecem avanços significativos em relação às tecnologias estabelecidas. Na verdade, aproximadamente 70% dos empreendimentos DeepTech possuem patentes que cobrem a tecnologia que usam, e geralmente exigem pesquisa e desenvolvimento (P&D) e engenharia significativos antes que as empresas possam trazer soluções práticas de negócios ou de consumo do laboratório para o mercado e usá-las para resolver problemas fundamentais.

Atributos complementares dos empreendimentos DeepTechs

  • São orientados para o problema. Concentram-se em resolver problemas grandes e fundamentais, como fica claro pelo fato de que 97% dos empreendimentos DeepTech contribuem para pelo menos uma das metas de desenvolvimento sustentável da ONU.
  • Atuam na convergência de tecnologias. Por exemplo, 96% dos empreendimentos DeepTech usam pelo menos duas tecnologias e 66% usam mais de uma tecnologia avançada. Cerca de 70% dos empreendimentos de tecnologia profunda possuem patentes em suas tecnologias.
  • Desenvolvem principalmente produtos físicos, em vez de software. De fato, 83% dos empreendimentos DeepTech estão envolvidos na construção de um produto físico. Eles estão mudando a equação da inovação de bits para bits e átomos, trazendo o poder dos dados e da computação para o mundo físico.
  • Estão no centro de um ecossistema DeepTech. Cerca de 1.500 universidades e laboratórios de pesquisa estão envolvidos em DeepTech, e empreendimentos DeepTech receberam cerca de 1.500 doações de governos somente em 2018.

Ecossistema DeepTech

Na imagem que segue pode-se observar que no ecossistema DeepTech cada participante contribuindo com valor.

A Quarta Onda de Inovação

A primeira onda de inovação empresarial moderna começou no século XIX e início do século XX com avanços como o processo Bessemer para fabricação de aço e o processo Haber-Bosch para fabricação de amônia.

Após a Segunda Guerra Mundial, a segunda onda de inovação empresarial moderna – a revolução da informação – deu origem à P&D de grandes empresas, particularmente nos setores de TIC e farmacêutico. Bell Labs, IBM e Xerox PARC tornaram-se nomes conhecidos e oficinas do Prêmio Nobel. Só a Merck lançou sete novos medicamentos importantes durante a década de 1980.

Na onda seguinte, a revolução digital – dois caras em uma garagem (ou um dormitório de Harvard) – liderou a carga de inovação, resultando na ascensão do Vale do Silício e, mais tarde, da Costa Dourada da China como centros globais de tecnologia de computação e comunicação e crescimento econômico. Ao mesmo tempo, o novo campo da biotecnologia, também impulsionado por empreendedores, alimentou grande parte da inovação em produtos farmacêuticos.

A onda agora tomando forma à medida que as barreiras mais antigas à inovação desmoronam abraça um novo modelo e promete ampliar e aprofundar radicalmente a inovação em todos os setores de negócios.

O poder crescente e o custo decrescente da computação e o aumento das plataformas de tecnologia são os contribuintes mais importantes. A computação em nuvem está melhorando constantemente o desempenho e expandindo a amplitude de uso. As biofundições estão se tornando para a biologia sintética o que a computação em nuvem já é para a computação. Plataformas semelhantes estão surgindo em materiais avançados (Kebotix e VSPARTICLE são dois exemplos).

Enquanto isso, os custos continuam caindo, incluindo aqueles relacionados a equipamentos, tecnologia e acesso à infraestrutura.

O uso crescente de padrões, kits de ferramentas e uma abordagem aberta à inovação, juntamente com a disponibilidade cada vez maior de informações e dados, também está desempenhando um papel importante.

Alimentando a Grande Onda: A Abordagem da Deep Tech

Os empreendimentos de tecnologia profunda bem-sucedidos contam com uma abordagem tripla

  • Eles usam a orientação para problemas para identificar oportunidades e navegar e dominar a complexidade.
  • As convergências de abordagens e de tecnologias potencializam a inovação, ampliam o espaço de opções e resolvem problemas para os quais não existiam soluções anteriormente.
  • O ciclo de projeto-construção-teste-aprendizagem (DBTL) reduz os riscos e acelera o desenvolvimento do produto e o tempo de comercialização.

As DeepTechs vivem na convergência de três abordagens

A convergência de tecnologias abre novas oportunidades

Draft de um canvas de Modelo de Negócios DeepTech genérico

Aqui vale lembrar que um modelo de negócios em sua essência deve comunicar de forma sintética como a organização cria, entrega e captura valor. Considera-se que deve acompanhar um plano estratégico bem elaborado, que fará parte de um Plano de Negócios, e que os slides de um pitch devem conter um belo resumo deste plano.

Observação: Cada Negócio DeepTech provavelmente será único, com um modelo de negócios apropriado a ser desenhado de forma apropriada para representá-lo.

Considerações finais

O objetivo deste post foi o de fornecer um resumo introdutório ao tema DeepTech e apresentar uma ideia de sua abrangência. Vide abaixo, links para mais artigos relacionados com empreendedorismo inovador.

Sobre mim: aqui. Contato: aqui.

Abraços, Nei Grando

Referências

Este post foi elaborado a partir de uma tradução adaptada e resumida de um um relatório da consultoria BCG “Deep Tech and the Great Wave of Innovation”, by Antoine Gourevitch, Massimo Portincaso, Arnaud de la Tour, Nicolas Goeldel, and Usman Chaudhry.

Outras referências consideradas neste post:

Links para os sites das instituições mencionadas

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Escolhendo os sócios ao empreender

Na jornada de empreender é preciso: um motivo (propósito); uma razão (por que?); uma paixão (ideia); um desejo/vontade (querer fazer); um comportamento (escolha de valores); um jeito próprio de ser (estilo); escolher um caminho (estratégia); escolher os companheiros (sócios e equipe); estabelecer os marcos; tentar prever os obstáculos (dificuldades, riscos); obter os recursos necessários; planejar; saber como executar (desenvolver, produzir, divulgar, vender, entregar); e muito mais.

Segundo  Joseph Schumpeter[1], o empreendedor precisa ser alguém versátil, que possui as habilidades técnicas para saber produzir, e capitalista, que consegue reunir recursos financeiros, organizar as operações internas e realizar as vendas da sua empresa.

Empreender também requer fazer escolhas, como por exemplo: iniciar individualmente (só) ou coletivamente (com sócios)? Atuar como serviços, comércio ou indústria? Ter um negócio próprio ou uma franquia? Atender empresas (B2B) ou usuários finais (B2C); Utilizar um canal de vendas físico ou virtual?

Tendo em vista os desafios e as habilidades necessárias para construir e gerir um negócio, decidir fazê-lo com um ou mais sócios é uma opção atraente. Mas como escolhê-los? E como alinhar as expectativas de cada um, manter bom relacionamento e evitar conflitos?    

            É disso que trata este artigo, questões societárias básicas.

Compartilhando o peso de empreender

Quando se pensa em ter um sócio para dividir o lucro do negócio, a primeiro ponto a se levar em conta é por que ter um sócio? Ou, ainda melhor, para que é que eu preciso ter um sócio?

Percebe-se um ambiente de negócios cada vez mais imprevisível, dinâmico, ininterrupto e acelerado. Empreender nesse ambiente não é uma tarefa fácil, pois conforme BENNETT e LEMOINE (2014) agora a gestão inclui volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade,  exigindo mais flexibilidade e agilidade aos decisores das empresas.

Em maio de 2011, ocorreu na FIAP, em São Paulo, um evento de tecnologia chamado GoaP – Geeks on a Plane, e nele, um dos palestrantes, investidor da região de Silicon Valley dos EUA, disse que a maioria das startups que obteve sucesso por lá, tinha dois ou mais sócios e destacou que carregar todo o peso de uma empresa sozinho não é uma tarefa fácil.

O relatório Startup Genome[2] aponta que fundadores solitários de empresas levam 3,6 vezes o mais tempo para atingir o estágio de crescimento em escala da startup do que as empresas com dois sócios.  Ou seja, sociedades com dois parceiros de negócios em sintonia geram sinergia, “1 + 1 é mais que 2”.

Mesmo sem ter as estatísticas do Brasil nesta área, pode-se imaginar cenários semelhantes nos quais fica mais fácil se conduzir uma empresa compartilhando as responsabilidades do negócio com um bom parceiro, alguém ético, que tenha paixão pelo que faz, muita vontade de trabalhar, e com competências complementares às do cofundador, suportando as pressões do dia-a-dia e transmitindo energia positiva para incentivar as pessoas a sua volta.

Vale lembrar que, por diversas razões, o risco de continuidade em uma empresa dependente de apenas um sócio é maior, podendo inclusive dificultar o acesso a recursos financeiros de investidores.

Sócio é um recurso muito caro

TRIAS DE BES (2008), aponta o sócio como o mais caro dos recursos de uma empresa, pois é com ele que o lucro será dividido. Um sócio é um recurso a mais, porém, às vezes, é possível encontrar outras formas de substituí-lo sem precisar fornecer participação na sociedade.

Um dos motivos que pode levar o empreendedor a se associar é o medo. O medo de empreender, de correr riscos, errar ou de não dar conta do que precisa ser feito; o medo de estar só e, às vezes, até mesmo o medo de tomar decisões. Para empreender sozinho, é necessário ser capaz de suportar as pressões do dia a dia, principalmente as que são causadas por eventos inesperados. Esses eventos podem ser internos, como um colaborador chave pedir demissão de uma hora para outra, ou podem ser externos, como um fornecedor que não entregou a mercadoria no prazo, o aumento repentino de custo de insumos, um novo concorrente que surgiu ou até mesmo alguma mudança radical na economia. É preciso saber tomar decisões, e rápido, mas não apressadamente. (TRIAS DE BES,2008).

Empreender requer uma visão particular das coisas, uma mistura de intuição e visão de negócio, difícil de compartilhar e alinhar com a visão de outras pessoas. Decidir sozinho permite decidir rápido, e isto é uma vantagem.

Em sociedade, algumas decisões requerem a aprovação de todos ou pelo menos da maioria, e isto pode levar algum tempo. Nesse sentido, para as coisas acontecerem rápido, alguém deve ser designado como responsável pelas decisões finais, com poder e autoridade de comando, direção e ordem.

Algumas perguntas para reflexão:

  • É realmente necessário um sócio e dividir parte do capital?
  • O que esse sócio pode fazer pelo negócio que eu não posso?
  • A escolha desse parceiro de negócios está sendo feita pela razão certa? Qual a motivação?
  • Que capital (R$) e quais outros recursos físicos e intangíveis o sócio trará para o negócio? O quanto de valor realmente será acrescentado ao negócio?
  • Os objetivos de curto, médio e longo prazos estão em sintonia?
  • Existem outras maneiras para preencher a falta de conhecimento ou capacidades sem que eu precise ter um sócio?

Alguns recursos que podem substituir a necessidade de um sócio:

  • Se precisar apenas de dinheiro, procure uma linha de crédito, um fundo de capital de risco, um investidor ou um banco.
  • Se precisar de ajuda, contrate um profissional.  Preferencialmente alguém que seja especialista na função ou atividade escolhida: gestor administrativo, gestor financeiro, gestor de vendas, ou outro.
  • Se precisar de alguém para fazer uma parte do negócio, a qual não domina e não faça parte do núcleo do negócio, terceirize para quem tem competência.
  • Se quiser companhia, para não tomar decisões precipitadas, converse com outros empreendedores; participe de feiras e eventos, fóruns de negócio etc.
  • Se precisar de conselhos técnicos, contrate um consultor;
  • Se precisar de conselhos legais, contrate um advogado.

Observações:

  • Se decidir contratar alguém ou terceirizar procure fazer isto com cautela, seja criterioso na seleção dos candidatos e só faça isso no momento que realmente estiver precisando da pessoa ou empresa, preferencialmente depois de ter bons clientes pagantes, ou seja, fluxo de caixa positivo.

Características do Sócio Ideal

Um bom sócio, mais do que um recurso, é alguém integro, de bom caráter, com perfil complementar de personalidade e de competências, que tem muita vontade de trabalhar, sintonizado com os demais sócios e com os objetivos do negócio e que realmente agregue valor à sociedade. É preciso que tal parceiro de negócios tenha paixão, coragem, preparo e determinação para empreender.  Não pode ser apenas alguém legal que parece levar jeito para a coisa. Vale lembrar que a escolha desse novo cotista é bilateral ou multilateral, ou seja, tanto a empresa quanto o candidato estarão decidindo. Para isso, é importante conhecer melhor a si mesmo e o outro, o que pode levar algum tempo. (GERBER, 2012; WELCH, 2005).

WELCH (2005), ao discorrer sobre liderança, apresenta um método que utilizou na General Electric. Nele, apresenta algumas características essenciais a um líder:

  • Integridade (sinceridade) – pois diz a verdade, cumpre as promessas, assume responsabilidades por suas ações passadas, reconhece seus erros e os conserta, conhece as leis do país e as regras da empresa e as cumpre, joga para ganhar de maneira honesta seguindo as regras.
  • Inteligência – pois têm curiosidade intelectual, conhecimentos e capacidade para trabalhar com outras pessoas.
  • Maturidade – pois enfrenta bem as situações de sufoco, sabe lidar com o estresse e retrocessos, nos momentos maravilhosos curte o sucesso, respeita as emoções alheias, é confiante, mas não é arrogante, tem senso de humor, principalmente a respeito de si mesmo.

Se o candidato passou por estas características essenciais, WELCH (2005) então continua em frente, recomendando verificar os 4Es e 1P a saber:

  • Energia positiva – pois avança, prospera na ação e curte a mudança, é geralmente extrovertido e otimista, conversa com naturalidade e faz amizade com facilidade, começa o dia com entusiasmo e geralmente o termina da mesma maneira, raramente parece cansado durante a jornada, não se queixa do excesso de trabalho, gosta de trabalhar mas também gosta de se divertir e ama a vida.
  • Energização – tem a capacidade de energizar os outros, inspirar a equipe a aceitar desafios e/ou o impossível e vibrar com a missão, deve conhecer profundamente o negócio e ter forte capacidade de persuasão.
  • Estofo – ou seja, a coragem de tomar decisões difíceis do tipo sim ou não, sabe quando partir para a ação, mesmo com poucas informações arrisca e usa a intuição.
  • Execução – faz o que é preciso fazer (o trabalho), converte decisões em ações e persiste até a conclusão, supera as resistências, vence o caos e transpõe os obstáculos inesperados, sabe vencer e conseguir resultados.
  • Paixão – tem uma vibração sincera, profunda e genuína em relação ao trabalho, importa-se de verdade com a vitória dos colegas, colaboradores e amigos; ama aprender a crescer e é estimulado/a quando outras pessoas ao redor também aprendem e crescem; não vibra apenas com o trabalho, demonstra paixão por tudo, pois tem a seiva da vida nas veias.

Esses podem parecer adjetivos de super-herói, mas são um ideal a buscar. É raro encontrar um profissional para gestão ou um pretendente a sócio com todas essas qualidades, mas essa lista, pelo menos, serve como guia comparativa, nos ajudando a avaliar as características do possível sócio. Podem também servir para uma avaliação pessoal de qualidades e defeitos, como instrumento de autorreflexão.

Ao longo do convívio e/ou durante uma boa conversa com perguntas apropriadas é possível identificar os comportamentos típicos da pessoa, seus hábitos, seus pontos fortes e seus pontos fracos. Afinal, o objetivo é encontrar alguém competente, leal, ético/a, de confiança e comprometido/a.

Perfis de sócios a serem evitados

Segundo GERBER (2012) Ao analisar um potencial sócio deve-se considerar alguns perfis que, quando são exagerados devem ser evitados:

  • O dono da ideia – a ideia do negócio é importante e tem valor, mas sem a devida execução, esse valor fica próximo de zero. Se o provável sócio é apenas a pessoa que trouxe a ideia do negócio, isso não basta. Para fazê-la tornar-se realidade, é preciso investimento e muito trabalho. O dono da ideia terá de participar de tudo, precisará fazer sua parte.
  • O perfeccionista – perfeccionismo[3] é um defeito e não uma virtude. Muitas vezes, a busca da perfeição em um plano ou uma tomada de decisão pode mascarar uma procrastinação ou o medo de fazer acontecer. O profissional deve buscar a excelência e mitigar riscos, mas deve também ter equilíbrio e iniciativa.
  • O acadêmico – a base acadêmica pode ser muito útil ao negócio, um doutor pesquisador pode ter muito a contribuir, mas é bom certificar-se de que o potencial sócio saiba distinguir a teoria da realidade. Na prática nem tudo acontece como ensinam os livros, sendo necessário considerar a realidade do mercado entre outros fatores.
  • O dono da razão – algumas pessoas pensam que estão sempre certas, são influenciadoras e até mesmo manipuladoras. Têm dificuldade de ouvir e aceitar as ideias e opiniões de outras pessoas. Muitas vezes são verdadeiros ditadores que odeiam ser contrariados. Vale lembrar que a empatia, a colaboração e a boa comunicação são essenciais em uma sociedade.
  • O folgado – a vida pessoal é importante, mas a fase inicial de uma empresa vai exigir sacrifícios. Muitos dizem que haverá alegria, mas que exigirá dos sócios: “sangue, suor e lágrimas”, ou seja, muito trabalho. Algumas pessoas tendem a não dedicar o mesmo tempo ao trabalho do que outras. Elas sempre têm algo pessoal urgente e/ou importante a fazer, estão sempre precisando de uns dias de folga e dificilmente repõem o tempo usado com horas de trabalho adicional em outros dias. É preciso cuidado para não trazer para o negócio alguém que nunca aparece. Antes de escolher um sócio, verifique se o estágio atual de vida dele ou dela é compatível com o seu, exemplo: solteiro/a versus casado/a com filhos pequenos.
  • O gastão – uma empresa iniciante geralmente não tem muitos recursos financeiros. Um sócio “boa vida”, que não tem responsabilidade com o gasto do dinheiro da empresa ou que mistura despesas pessoais com as da sociedade pode destruir o negócio em pouco tempo. O ideal é alguém que valorize cada centavo ganho ou a ser investido no negócio. É fundamental estabelecer claramente de que forma o dinheiro da empresa será usado.

Além desses perfis exagerados, existe um outro tipo de sócio que deve ser considerado com cuidado: o parente. Muitas empresas familiares dão certo, a confiança costuma ser o principal motivo para esse tipo de sociedade, mas vale lembrar que ter o marido ou a esposa como sócios pode prejudicar o relacionamento do casal. Ter o irmão ou irmã como sócios pode ser muito interessante a princípio, mas imagine se não der muito certo trabalhar juntos, como administrar os conflitos? Como seria a separação? Uma coisa é despedir um funcionário, outra é terminar a sociedade com um ex-amigo, por exemplo, já a pior situação de todas é ter que pedir um rompimento societário com um parente e depois ter que encontrá-lo no círculo familiar.

Uma conversa franca

Antes de escolher o sócio ou a sócia é bom ter uma conversa a dois de portas fechadas, e, então dialogar sobre: visão política, religiosa, time que torcem, maus hábitos e estilo de trabalho; dívidas e/ou obrigações financeiras que cada um tem; informações que seriam reveladas ao checar antecedentes de crédito; se há alguma disputa jurídica pessoal ou corporativa em aberto ou do passado, ou potenciais problemas que podem surgir a qualquer momento; obrigações pessoais, empresariais ou de estudo que podem afastá-lo/a das atividades na empresa; desejos de participação de capital e trabalho na sociedade, bem como outros pontos a serem considerados em um acordo formal; informações sobre cônjuge, pais, irmãos e filhos; visão para o negócio e outros pontos que achar relevante para ajudar na tomada de decisão de se associar ou não. Lembre-se de que a confiança mútua será fundamental na caminhada. (GERBER, 2012).

O que deve ser combinado entre os sócios

Ao escolher um ou mais sócios para o empreendimento, algumas coisas precisam ser combinadas e ficar muito claras. Advogados e investidores, recomendam ter tudo documentado num acordo de cotistas[4], um documento que complementa o contrato social[5] exigido por lei. Quando se coloca o que foi combinado num documento, fica difícil alguém falar depois em uma conversa: “eu não disse isso” ou “não foi bem isso que eu quis dizer”. Antes mesmo da sua função legal, esse documento tem o papel de lembrar os envolvidos sobre aquilo que foi combinado e, por isso, deve ser muito bem redigido, lido, e conferido antes de ser assinado pelas partes. Isso separa o relacionamento de amizade do profissional e evitará, ou pelo menos diminuirá, muito os conflitos, discussões e até mesmo as brigas no futuro.  O apoio e as orientações de um advogado experiente são recomendados neste caso, e é claro que o acordo poderá ser alterado no futuro com o consentimento de todos.

O que deve conter o acordo de cotista

O mais importante é saber qual será o papel de cada um na sociedade. Não só o cargo, mas também as funções, ou seja, qual “chapéu” ou quais os “chapéus” que usarão. Quais serão suas responsabilidades e qual será a remuneração por esse trabalho. É importante separar bem a participação no lucro da empresa, que está relacionada com as cotas da sociedade, da remuneração pelas atividades. 

Outro item fundamental é com relação à saída de um dos sócios, a conhecida cláusula de exit. É importante combinar desde o início da sociedade como será a separação, ou seja, o que será feito se um dos sócios quiser deixar a empresa, ou, ainda mais grave, se um dos sócios quiser que o outro deixe a empresa.

Além de estipular o capital inicial, deve ser combinado em que situações poderão ser feitos aportes adicionais de dinheiro e como serão os procedimentos.

O documento deve indicar quem autoriza pagamentos e assina os cheques.

Cuidados adicionais devem ser tomados com relação a sócios investidores, que só entram com o capital no negócio.

Observação:

As sociedades de responsabilidade limitada correspondem a mais de 90% das sociedades (empresas com mais de um sócio) legalmente formalizadas no Brasil. Uma sociedade assim visa à proteção do patrimônio pessoal dos sócios, ou seja, se a sociedade não der certo ou tiver um insucesso comercial, os sócios responderão no limite do capital social pré-estabelecido em contrato. E, assim estará preservado o patrimônio pessoal de cada um dos sócios. No entanto, é preciso tomar cuidado para ter impostos e taxas pagos em dia e estar atento para não misturar dinheiro pessoal com o da pessoa jurídica. Se houver um insucesso e for constatada uma confusão patrimonial ou sonegação fiscal, o juiz poderá considerar que os bens pessoais foram adquiridos com o dinheiro da empresa, então cai por terra a responsabilidade limitada.

Considerações finais

Este artigo descreveu de forma introdutória e resumida informações importantes sobre a relação entre sócios, porém, conforme a introdução, na jornada empreendedora, existem muitas outras áreas do conhecimento a considerar na criação e gestão de uma empresa, assim espera-se que um potencial empreendedor ou sócio – busque pelo menos um mínimo de tais conhecimentos, além do apoio de mentores e advisors, para reduzir os riscos e incertezas que fazem parte de um negócio na prática.


Autor

Nei Grando – diretor executivo da STRATEGIUS, é consultor e palestrante em estratégia, inovação, transformação digital, organizações exponenciais e cidades inteligentes; pesquisador em inteligência artificial; conselheiro de empresas e mentor de startups. Autor do blog neigrando.com – Mestre em ciências pela FEA-USP, graduado em TI pela UEM, com MBA em Administração pela FGV e cursos de extensão em Estratégia e Gestão do Conhecimento (FGV) e Inovação e Redes Sociais (ESPM). Teve duas empresas de software e soluções de TI, onde conduziu o desenvolvimento de portais e plataformas digitais de negócios, internet-banking, home broker, CRM, GED, GC e outros. É o organizador e um dos autores do livro “Empreendedorismo inovador”, e autor em outros três. Como professor, ministrou as disciplinas de “Strategic Thinking” e “Planejamento Estratégico” em curso MBA da FIAP, “Intelligence Driven Decision” e “Fundamentos de Inteligência Artificial” em curso MBA da ESPM e como prof. convidado, no curso “Laboratório de Startups” do CIC-ESPM.

Notas

[1] SHUMPETER (1934)

[2]Veja mais sobre o Startup Genome Report 2011, resultante de pesquisa foi feita com mais de 660 empresas de TI para levantar características de Startups de sucesso, em:

[3] Segundo a Wikipidia: O perfeccionismo é um distúrbio neurótico no qual a pessoa tem um sentimento constante de insatisfação com seu desempenho e dúvidas sobre a qualidade de seu trabalho, o que leva o indivíduo a escrupulosidade, verificações de pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessivas prejudicando a sua pontualidade e eficiência.

[4] Esse acordo é similar ao Acordo de Acionistas utilizados pelas sociedades anônimas (S.A.). IBGC (2019), chama este documento de Acordo de Fundadores na fase pré-operacional e Acordo de Sócios após a empresa ser formalizada e operacional.

[5] Orientações para Elaboração de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/elaboracao_contrato.htm

Modelo de Contrato Social: http://www.dnrc.gov.br/Servicos_dnrc/Orientacoes_e_modelos/modelo_basico_contrato.htm

Referências

BENNETT, Nathan; LEMOINE, G. James. What a difference a word makes: Understanding threats to performance in a VUCA world. Business Horizons, v. 57, n. 3, p. 311-317, 2014.

BRASIL. Lei 6.404. Dispõe sobre as Sociedades por Ações. 15 dez. 1976. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6404consol.htm>. Acesso em: 20 abr. 2019.

FDC – Fundação Dom Cabral. Causa da mortalidade das startups brasileiras: como aumentar as chances de sobrevivência no mercado. 2012. Disponível em: < https://www.fdc.org.br/conhecimento/publicacoes/artigo-29767>. Acesso em: 20 abr. 2019.

GERBER, Scott. Nunca procure um emprego! Dispense o chefe e crie o seu próprio negócio sem ir à falência. São Paulo: Évora, cap.6, p.92-103, 2012.

GRANDO Nei. Só ou acompanhado? A escolha de sócios. In: GRANDO, Nei. (ORG). Empreendedorismo inovador: Como criar Startups de Tecnologia no Brasil. São Paulo: Évora, cap.4, p.54-72, 2012. 

IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Governança Corporativa para Startups & Scale-ups. São Paulo: IBGC, 2019.

SCHUMPETER, Joseph A. The theory of economic development: An inquiry into profits, capital, credit, interest, and the business cycle. Transaction publishers, v.55, 1934.

STARTUP COMMONS. “Startup Development Phases”. Disponível em: <http://www.startupcommons.org/startup-development-phases.html&gt;. Acesso em: 20 abr. 2019.

TRIAS DE BES, Fernando. O Livro Negro do Empreendedor: Depois não diga que não foi avisado. Rio de Janeiro: Best Seller, cap.6, p.56-61, 2008.

WELCH, Jack.  Paixão por Vencer. São Paulo: Campus, 2005

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