Liderança e Cultura Empresarial

Estratégia e Cultura estão em primeiro lugar nos questionamentos sem-fim da liderança para manter a viabilidade e efetividade organizacional.

  • A Estratégia oferece uma lógica formal para os objetivos e metas da empresa e orienta as pessoas ao redor dela.
  • A Cultura expressa os objetivos através de valores e crenças e guia as atividades por premissas, regras e normas compartilhados por todos.

A Estratégia fornece claridade e foco nas ações coletivas e tomada de decisão.

  • Ela depende de planos e um conjunto de escolhas para mobilizar pessoas e pode, frequentemente, ser reforçada por recompensas concretas ao alcançar as metas ou falhar ao tentar.
  • Ela também incorpora elementos de adaptação que pesquisam e analisam o ambiente externo e percebem quando mudanças são requeridas para manter a continuidade e o crescimento.

A Liderança vai de mãos dadas com a formação estratégica e a maioria dos líderes entendem os seus fundamentos.

A Cultura, entretanto, pertence a um nível mais indescritível, por porque está ancorada nos comportamentos não descritos, mentalidades e padrões sociais.

Liderança e Cultura Organizacional

Querendo ou não, Cultura e Liderança estão intrinsicamente em conexão. Fundadores e líderes influenciadores geralmente posicionam novas culturas em movimento e imprimem valores e premissas que persistem por décadas.

De tempos em tempos os líderes organizacionais podem moldar a Cultura através de ações conscientes e inconscientes, as vezes com consequências não desejadas. Os melhores líderes são conscientes das múltiplas culturas em que estão incorporados, conseguem identificar quando mudanças são necessárias e podem influenciar o processo de mudança.

Observação: Infelizmente é muito mais comum ver líderes que procuram construir organizações de alto desempenho, confundindo isso com cultura, ou deixar de considerar a gestão da cultura, relegando-a ao departamento de recursos humanos, considerando que seja uma questão menos importante aos negócios. Preocupam-se em detalhes com planos para estratégia e execução, mas por não entender a importância da cultura, nem sua dinâmica e poder, acabam saindo dos trilhos, neste caso sim, como já disseram: a cultura come a estratégia no café da manhã.

Mas não precisa ser assim, a Cultura pode ser de fato administrada. Para isso, o passo mais importante que os líderes podem tomar para maximizar seu valor e reduzir os riscos é tornar-se completamente conscientes de como ela funciona.

Groysbrg, Lee, Price, & Cheng (2018), no artigo da Harvard Business Review – “The Leader’s Guide to Corporate Culture”, definem Cultura como: “ordem social tácita de uma organização: que molda atitudes e comportamentos de forma ampla e durável”. Normas culturais definem o que é encorajado, desencorajado, aceito ou rejeitado em um grupo. Quando alinhada apropriadamente com valores pessoais, condutores e necessidades, a cultura pode desencadear tremenda soma de energias em direção a um propósito conduzindo a organização à prosperidade.

A Cultura pode envolver flexibilidade e autonomia em respostas as oportunidades e demandas de mudança.

Na vasta literatura pesquisada pelos autores acima foi identificado quatro principais atributos da Cultura:

  • Compartilhada: Cultura é um fenômeno grupal. Ela não pode viver só, em uma única pessoa, nem é simplesmente uma média das características das individuais. Ela reside nos comportamentos, valores e premissas, sendo experimentada através de normas e expectativas de um grupo – ou seja, de regras não escritas.
  • Pervasiva: A Cultura permeia múltiplos níveis e aplica-se amplamente em uma organização, as vezes confundida com a própria organização. Ela se manifesta nos comportamentos, ambientes físicos, rituais do grupo, símbolos visíveis, histórias e lendas. Outros aspectos da Cultura são invisíveis, como mentalidades, motivações, pressupostos não falados e “lógicas de ação” (David Hook e Willian Torbert), ou seja, modelos mentais de como interpretar e responder ao mundo a seu redor.
  • Duradoura: A Cultura pode dirigir os pensamentos e ações dos membros do grupo a longo prazo. Ela é desenvolvida através de eventos críticos da vida coletiva e aprendizagem do grupo. Sua duração é explicada em parte pelo modelo atração-seleção-atrito (Benjamin Schneider): pessoas são atraídas por organizações com características similares as delas; organizações tendem a selecionar pessoas que parecem se encaixar (“fit in”); e com o tempo aqueles que não se encaixam tendem a sair. Assim a Cultura reforça-se a si mesma com seus padrões sociais que crescem incrementalmente resistentes a mudança e influências externas.
  • Implícita: Um aspecto importante da Cultura, com pouca atenção, é que a despeito de sua natureza subliminar, as pessoas efetivamente reconhecem e respondem a ela inconscientemente, pois atua como uma linguagem silenciosa.

Um framework de duas dimensões

Os autores do artigo original apresentam oito estilos de Cultura que se destacam nas organizações independentemente de seu tipo, tamanho, setor ou localização geográfica – distribuídos em duas dimensões, que facilitam oentendimento:

  • Interações entre pessoas: Uma organização que se orienta através de interações das pessoas e coordenação se enquadra no eixo de altamente independente a altamente interdependente. Culturas que se inclinam para independência valorizam a autonomia, ações individuais e competição. As que se inclinam para a interdependência, enfatizam integração, gestão de relacionamentos, e coordenação de esforços em grupo. As pessoas nestas culturas tendem a colaboração e veem o sucesso com as lentes do grupo.
  • Resposta a mudanças: Enquanto algumas culturas enfatizam a estabilidade – priorizando consistência, previsibilidade e manutenção da situação (status quo) – outras enfatizam flexibilidade, adaptabilidade, e receptividade a mudanças. As que são favoráveis à estabilidade, tendem a seguir as regras, usam estruturas de controle via gestores seniores, reforçam a hierarquia, e se esforção para a eficiência. Aquelas que são favoráveis à flexibilidade tendem a priorizar a inovação, abertura, diversidade, e orientação a longo prazo.

Oito estilos de Cultura

Aplicando este insight fundamental das dimensões, os autores obtiveram oito estilos que se aplicam às organizações e aos líderes:

  • Cuidado (caring): Foca no relacionamento e confiança mútua. O ambiente de trabalho é aconchegante, colaborativo, com lugares de boas-vindas onde as pessoas ajudam e suportam uns aos outros. Os empregados são unidos pela lealdade. Os líderes enfatizam sinceridade, trabalho em grupo e relacionamentos positivos.
  • Propósito: É exemplificado pelo idealismo e altruísmo. O ambiente de trabalho é tolerante, com lugares de compaixão onde as pessoas tentam fazer o bem para o futuro do mundo. Os empregados são unidos pelo foco na sustentabilidade e comunidades globais. Os líderes enfatizam ideais compartilhados e contribuição para uma grande causa.
  • Aprendizagem: É caracterizada pela exploração, expansividade e criatividade. O ambiente de trabalho é inventivo com mentalidade aberta onde pessoas comunicam novas ideias e exploram alternativas. Os empregados são unidos pela curiosidade. Os líderes enfatizam a inovação, conhecimento e aventura.
  • Prazer: É expresso pela diversão e excitamento. O ambiente de trabalho é de lugares alegres onde as pessoas tendem a fazer o que as fazem felizes. Os empregados são unidos por brincadeiras e estimulações. Os líderes enfatizam espontaneidade e senso de humor.
  • Resultado: É caracterizado pela conquista e vitória. O ambiente de trabalho é um lugar caracterizado pela busca por resultados e mérito onde as pessoas aspiram alcançar alto desempenho. Os empregados são unidos pela capacidade e sucesso. Os líderes enfatizam o alcance de metas.
  • Autoridade: É definida pela força, determinação e ousadia. O ambiente de trabalho é um lugar competitivo onde as pessoas esforçam-se para obter vantagens pessoais. Os empregados são unidos por um controle forte. Os líderes enfatizam confiança e domínio.
  • Segurança: É definida pelo planejamento, cuidado e preparação. O ambiente de trabalho é um lugar previsível onde as pessoas são conscientes dos riscos e pensam tudo cuidadosamente. Os empregados são unidos pelo desejo de se sentirem protegidos e antecipar mudanças. Os líderes enfatizam ser realistas e planejarem com antecedência.
  • Ordem: É focada no respeito, estrutura e normas compartilhadas. O ambiente de trabalho é um lugar metódico onde as pessoas tendem a jogar conforme as regras e se encaixarem. Os empregados são unidos pela cooperação. Os líderes enfatizam procedimentos compartilhados e costumes respeitados.

Esses oito estilos se encaixam em sua estrutura de cultura integrada de acordo com o grau em que refletem independência ou interdependência (interações com as pessoas) e flexibilidade ou estabilidade (resposta à mudança).

Estilos adjacentes à estrutura, como segurança e ordem, coexistem frequentemente nas organizações e em suas pessoas. Por outro lado, os estilos que estão localizados um no outro, como segurança e aprendizagem, têm menos probabilidade de serem encontrados juntos e exigem mais energia organizacional para manter simultaneamente.

Cada estilo tem vantagens e desvantagens, e nenhum estilo é inerentemente melhor que outro. Uma cultura organizacional pode ser definida pelas forças absolutas e relativas de cada uma das oito e pelo grau de concordância dos funcionários sobre quais estilos caracterizam a organização. Uma característica poderosa dessa estrutura, que a diferencia de outros modelos, é que ela também pode ser usada para definir estilos de indivíduos e valores de líderes e funcionários.

Inerente à estrutura estão os conflitos fundamentais. Embora cada estilo possa ser benéfico, restrições naturais e demandas concorrentes forçam escolhas difíceis sobre quais valores enfatizar e como as pessoas devem se comportar. É comum encontrar organizações com culturas que enfatizam o resultado e o cuidado, mas essa combinação pode ser confusa para os funcionários. Eles devem otimizar metas individuais e buscar resultados a todo custo, ou devem trabalhar em equipe e enfatizar a colaboração e o sucesso compartilhado? A natureza do trabalho em si, a estratégia de negócios ou o design da organização podem dificultar que os funcionários sejam igualmente focados em resultado e em cuidado (relacionamento e confiança).

Por outro lado, uma cultura que enfatiza o cuidado e a ordem incentiva um ambiente de trabalho no qual o trabalho em equipe, a confiança e o respeito são fundamentais. Os dois estilos se reforçam mutuamente, o que pode ser benéfico, mas também pode apresentar desafios. Os benefícios são fortes na lealdade, retenção de talentos, falta de conflito e altos níveis de envolvimento. Os desafios são uma tendência ao pensamento do grupo, confiança em decisões baseadas em consenso, prevenção de problemas difíceis e um senso calcificado de “nós versus eles”.

Os líderes mais focados em resultado e aprendendo a encontrar a combinação de carinho e ordem são sufocantes quando procuram impulsionar o empreendedorismo e a mudança. Os líderes mais experientes fazem uso das forças culturais existentes e têm uma compreensão diferenciada de como iniciar a mudança. Eles podem confiar na natureza participativa de uma cultura focada no cuidado e na ordem para envolver os membros da equipe e, simultaneamente, identificar alguém de dentro (um “insider“) orientado para a aprendizagem, que tem a confiança de seus colegas em defender mudanças através de redes de relacionamento.

Os oito estilos podem ser usados para diagnosticar e descrever os padrões de complexidade e de comportamentos diversos em uma cultura e modelar o quanto um líder individual deseja se alinhar e dar forma a àquela cultura. Usando este framework e abordagem multinível, os gerentes podem:

  • Entender a cultura de sua organização e avaliar seus efeitos pretendidos e não intencionais.
  • Avaliar o nível de consistência na visão dos funcionários sobre a cultura.
  • Identificar subculturas que podem ser responsáveis por alto ou baixo desempenho do grupo.
  • Identificar diferenças entre as culturas herdadas durante fusões e aquisições.
  • Orientar rapidamente os novos executivos à cultura em que estão se unindo e ajudando-os a determinar a maneira mais eficaz de liderar os funcionários.
  • Medir o grau de alinhamento entre os estilos de liderança individual e a cultura organizacional para determinar o impacto que um líder pode ter.
  • Projetar uma cultura aspiracional e comunicar as mudanças necessárias para alcançá-la.

É POSSÍVELna verdade, vital – melhorar o desempenho organizacional por meio da mudança de cultura, usando os modelos e métodos simples, mas poderosos, como os deste artigo. Líderes devem se conscientizar da cultura que opera em sua organização. Em seguida, podem definir uma cultura alvo aspiracional. Finalmente, eles podem dominar as principais práticas de mudança de articulação da aspiração, alinhamento da liderança, conversação organizacional e design organizacional.

Liderar com cultura pode estar entre as poucas fontes de vantagem competitiva sustentável deixadas para as empresas de hoje. Os líderes bem-sucedidos deixarão de encarar a cultura com frustração e, em vez disso, a usarão como ferramenta fundamental de gestão.

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Referência

Observação: Este artigo trata-se de uma versão reduzida, traduzida e adaptada do artigo original: Groysbrg, Lee, Price, & Cheng (2018), no artigo da Harvard Business Review – “The Leader’s Guide to Corporate Culture”.Why should SMEs think more about data?, da revista Harvard Business Review.

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SMART CITY: Por uma Cidade mais Inteligente

Acredito que toda cidade de alguma forma já é inteligente, pois é composta de governantes, servidores e cidadãos inteligentes, possui infraestrutura, universidades e escolas, empresas e associações com gestores inteligentes.

Porém nesse artigo, abordarei o conceito de Cidade Inteligente (Smart City) com o objetivo de apoiar a transformação digital e urbana necessária para tornar qualquer cidade ainda mais inteligente para todos os interessados.

Em maio de 2021, ministrei uma palestra no HITT com a apresentação do Relatório: “Roadmap de Planejamento Tecnológico para a Cidade Inteligente de Taubaté-SP“.

Meu principal objetivo com esse relatório, de aproximadamente 100 páginas, resultado de pesquisa profunda e customizado para a cidade, foi de alinhar o conceito de Cidades Inteligentes e possibilidades junto a todos os interessados da cidade e do município: governantes, acadêmicos, empresários, participantes de associações, representantes de bairros, …

A principal vantagem que o relatório pode trazer é o engajamento e a participação de todos na construção de uma cidade ainda mais inteligente, humana e sustentável do que é. Isso em termos econômicos, sociais, educacionais, considerando infraestrutura, segurança, ambiente e outros elementos em que a tecnologia digital possa ajudar. Trata-se de uma excelente ferramenta para melhor entendimento e negociação com os fornecedores de soluções tecnológicas e todos os envolvidos do município.

Elementos do planejamento tecnológico para uma cidade mais inteligente

Cidades mais inteligentes favorecem o desenvolvimento integrado e sustentável tornando-se mais inovadoras, competitivas, atrativas e resilientes, melhorando vidas.

Salientando aqui que o conceito de Cidades Inteligentes evoluiu nos seguintes estágios:

  • No primeiro temos as cidades inteligentes 1.0, municípios onde as tomadas de decisão são direcionadas pela tecnologia;
  • No segundo, estão as 2.0, nas quais são as demandas dos cidadãos e os governos que direcionam a tecnologia na busca por soluções urbanas;
  • No terceiro e mais recente, estão as 3.0, pautadas em um viés mais inclusivo de transformação digital urbana, com maior foco no cidadão.
Principais características de uma Cidade inteligente

Transformação Digital e Desenvolvimento Econômico Sustentável

Em 2015 a Assembleia Geral da Nações Unidas (ONU) aprovou a Agenda 2030, que é estruturada em 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre eles, está o Objetivo 11 – “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”.

Na era digital, o direito a cidades sustentáveis está condicionado ao direito de acesso à internet, porém, muitos fatores prejudicam o pleno direito à conectividade digital, como a distribuição da infraestrutura para inclusão digital, custos, diferentes capacidades de acesso e interação com dispositivos digitais e diferentes capacidades que impactam cada vez mais as desigualdades socioeconômicas e espaciais.

Para a Agenda Brasileira para Cidades Inteligentes, o conceito brasileiro de “Cidades Inteligentes” pode ser complementado pelos conceitos auxiliares de “Transformação Digital Sustentável” e “Desenvolvimento Urbano Sustentável”, descritos como segue:

Cidades Inteligentes são cidades comprometidas com o desenvolvimento urbano e a transformação digital sustentáveis, em seus aspectos econômico, ambiental e sociocultural, que atuam de forma planejada, inovadora, inclusiva e em rede, promovem o letramento digital, a governança e a gestão colaborativas e utilizam tecnologias para solucionar problemas concretos, criar oportunidades, oferecer serviços com eficiência, reduzir desigualdades, aumentar a resiliência e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas, garantindo o uso seguro e responsável de dados e das tecnologias da informação e comunicação.”

Transformação Digital Sustentável é o processo de adoção responsável de tecnologias da informação e comunicação, baseado na ética digital e orientado para o bem comum, compreendendo a segurança cibernética e a transparência na utilização de dados, informações, algoritmos e dispositivos, a disponibilização de dados e códigos abertos, acessíveis a todas as pessoas, a proteção geral de dados pessoais, o letramento e a inclusão digitais, de forma adequada e respeitosa em relação às características socioculturais, econômicas, urbanas, ambientais e político-institucionais específicas de cada território, à conservação dos recursos naturais e das condições de saúde das pessoas.”

Desenvolvimento Urbano Sustentável é o processo de ocupação urbana orientada para o bem comum e para a redução de desigualdades, que equilibra as necessidades sociais, dinamiza a cultura, valoriza e fortalece identidades, utiliza de forma responsável os recursos naturais, tecnológicos, urbanos e financeiros, e promove o desenvolvimento econômico local, impulsionando a criação de oportunidades na diversidade e a inclusão social, produtiva e espacial de todas as pessoas, da presente e das futuras gerações, por meio da distribuição equitativa de infraestrutura, espaços públicos, bens e serviços urbanos e do adequado ordenamento do uso e da ocupação do solo em diferentes contextos e escalas territoriais, com respeito a pactos sociopolíticos estabelecidos em arenas democráticas de governança colaborativa.”

Essas ações de transformação digital e desenvolvimento urbano devem ser realizadas de forma adequada e com respeito às características socioculturais, econômicas, urbanas, ambientais e político-institucionais específicas de cada território. E devem conservar os recursos naturais além de preservar as condições de saúde das pessoas.

A Transformação Digital é um fenômeno histórico de mudança cultural provocada pelo uso disseminado das tecnologias de informação e comunicação (TICs) nas práticas sociais, ambientais, políticas e econômicas. Esta transformação provoca uma grande mudança cultural, inédita, rápida e difícil de entender na sua totalidade. Afeta mentalidades e comportamentos nas organizações, governos, empresas e na sociedade de forma geral.

Tecnologias da Informação e Comunicação é o conjunto de ferramentas e recursos tecnológicos (hardware, software, rede) que permite às pessoas acessar, armazenar, transmitir e manipular informações.” – (Baseado no conceito da Unesco).

A transformação digital pode gerar impactos positivos ou desafios, dependendo do contexto. A realidade de cada lugar também influencia no potencial de uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). É preciso, portanto, considerar a ampla diversidade e as profundas desigualdades históricas que marcam nosso território ao agir e refletir sobre a transformação digital.

Níveis de maturidade de uma cidade inteligente, adaptado de Cunha (2016).

Finalizando

Para existirem cidades mais inteligentes, humanas e sustentáveis, contamos com o apoio de governantes, servidores e cidadãos inteligentes.

O relatório final é bastante rico em conteúdo, pois além de apresentar características, princípios balizadores, diretrizes norteadoras e informações relevantes obtidas a partir de estudos sobre cidades reais e cidades ideais em termos de maturidade para uma cidade mais inteligente, fornece informações sobre tecnologias usadas, uma análise sobre o posicionamento atual da cidade, um caminho geral para tornar a cidade mais inteligente, e, principalmente, um roteiro de planejamento tecnológico para a transformação da cidade.

Para mais informações sobre um relatório customizado para sua cidade – entre em contato

Sobre mim

Nei Grando – diretor executivo da STRATEGIUS, atua como pesquisador e curador de conteúdo, consultor, professor e palestrante sobre estratégia e novos modelos de negócios, inovação, organizações exponenciais, transformação digital e agilidade organizacional e cidades inteligentes. Teve duas empresas de TI especializada no desenvolvimento de software e soluções de conectividade, onde atuou como gestor e conduziu projetos, sistemas, plataformas de negócios, portais e serviços para o Mercado de Capitais, CRM, GED, Internet-banking, Publicidade Digital, GC, e outros sob demanda. É mestre em Ciências pela FEA-USP (ênfase em inovação) com MBA pela FGV, organizador e autor do livro “Empreendedorismo Inovador: Como criar Startups de Tecnologia no Brasil”, e autor em outros dois. 

Detalhes: aqui, Contato: aqui.

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Canvas para IA centrado no Humano

O pensamento estratégico e a modelagem de negócios inovadores, bem como a transformação organizacional com ênfase no digital há muitos anos fazem parte da minha profissional, como pode ser visto em www.strategius.com.br

No trabalho de pesquisa acadêmica com foco em negócios que fazemos no Núcleo Decide da FEA-USP, atualmente estamos pesquisando sobre o Uso da Inteligência Artificial na Tomada de Decisões Organizacionais e algo que sempre vem a nossas mentes e diálogos entre os pesquisadores são as questões éticas do uso da IA e a preocupação com o lado humano, que deve ser sempre considerado ao se pensar em soluções IA para quaisquer problemas apresentados.

Para minha surpresa, encontrei e li recentemente um artigo de Albéric Maillet que traz estas questões sobre projetos e soluções de IA apresentando um canvas para facilitar o pensar e praticar soluções centradas no humano.

Uma ferramenta para ajudá-lo a navegar em sua transformação digital usando a Inteligência Artificial (IA) com o contexto humano em mente.

Segue uma versão traduzida e adaptada do texto do artigo original:

O potencial da IA para empresas em crescimento é irrevogável. Com nuvem, segurança cibernética e big data, a IA é considerada a principal prioridade para investimentos em tecnologia nos últimos anos. Convergindo cada vez mais com outras tecnologias em vigor, a IA está impulsionando a próxima geração de negócios por estar na vanguarda de quase toda transformação digital. Com 9 entre 10 executivos de todo o mundo descrevendo a IA como uma ferramenta importante para resolver os desafios estratégicos de suas organizações, a corrida em direção à promessa de ouro de crescimento exponencial é real.

Apesar de ser um dos defensores mais ativos, o próprio pioneiro da IA, Yoshua Bengio, emitiu recentemente um alerta contra a busca cega dessa nova tecnologia brilhante. O pensamento de curto prazo no desenvolvimento da IA ​​sem qualquer forma de regulamentação e consideração de seus potenciais efeitos sistêmicos pode levar a implicações imprevistas nas arenas sociais, éticas e políticas.

Como a tecnologia ainda está em sua infância, é difícil prever o impacto em termos de perda de empregos ou deslocamento – o McKinsey Global Institute sugere que, em 2030, agentes inteligentes e robôs poderiam eliminar até 30 por cento do trabalho humano mundial em um período recente estudo de dois anos. Seja qual for a extensão, é responsabilidade dos líderes empresariais garantir que seu desenvolvimento seja pautado, a cada etapa, pela preocupação com seus efeitos sobre os seres humanos. Antes de abraçá-lo sem pensar como se fosse uma “bala de prata“, os iniciadores da mudança precisam ter certeza de que estão resolvendo os problemas certos onde as máquinas podem trazer valor real, e fazendo isso de uma forma que eleve as capacidades humanas em vez de deslocá-las. Em vez de olhar para ele como uma parte isolada da organização cuja função central é otimizar o processo em vigor, precisamos abordá-lo como a nova base de um conjunto interconectado de elementos que precisam ser equilibrados de forma coerente para realmente agregar valor significativo.

Esse pensamento de longo prazo e mentalidade sistêmica não são apenas bons em uma época em que agilidade e velocidade são os fundamentos dos negócios modernos, eles são fatores de sucesso. De fato, outro estudo recente da McKinsey relatou a falta de estratégia, antes da falta de recursos, como o maior desafio para a adoção de IA.

Prefiro ter perguntas que não podem ser respondidas do que respostas que não podem ser questionadas”, disse o físico e ganhador do prêmio Nobel Richard Feynman. Um processo de estratégia sempre começa com o questionamento: 1) para nos ajudar a ganhar perspectiva, 2) para superar potenciais vieses cognitivos, 3) para ter certeza de não pular para a solução antes de realmente entender o problema. Algumas questões:

  • Como a IA pode ajudá-lo com o problema que você está tentando resolver?
  • Quais são os limites do que podemos fazer com IA?
  • Quais tarefas os humanos fazem melhor em comparação com as máquinas?

Nesta época de pressa e mudanças rápidas, nunca foi tão importante fazer uma pausa. Considerando o que os efeitos da introdução da IA ​​aos humanos fariam, é um bom lugar para começar a ajudar a definir uma visão abrangente e os primeiros passos para a implementação.

Por que esse canvas?

Identificar como usar IA para provocar mudanças na sua organização ou a experiência do consumidor, é um desafio complexo para quem está começando neste campo sem ferramentas ou roteiro estabelecido. As oportunidades de aplicabilidade são amplas e priorizar onde agir primeiro pode parecer opressor sem um ponto de partida claro.

Quer sejam funcionários, clientes ou partes interessadas externas, a intenção desta ferramenta é convidar os envolvidos a refletir sobre a transformação da IA ​​do ponto de vista das pessoas que serão afetadas primeiro. O Canvas IA deve ser usado como uma bússola e guia nesta jornada, revelando os efeitos em cascata da transformação no contexto mais amplo da organização, provocando conversas sobre as implicações de projetar um sistema de IA autopreservável, resiliente e bem equilibrado.

A IA está trazendo mudanças estruturais na forma como as empresas operam, que vai muito além das considerações tecnológicas. O desenvolvimento de uma mentalidade de design com este canvas deve ajudar a prever como a digitalização movida a IA impactará as partes de construção da organização. Esperançosamente, este canvas também facilitará a abordagem da IA ​​como um campo interdisciplinar, criando uma linguagem comum e servindo como um ponto de partida para a discussão que vai além das disciplinas de ciência da computação e engenharia.

Com os desafios culturais e comportamentais no topo da lista das barreiras mais significativas para a eficácia digital, inclusão, transparência e abertura são requisitos indispensáveis ​​ao projetar novos modelos digitais. As empresas têm a responsabilidade de educar e envolver seus funcionários para evitar qualquer forma de ignorância que possa aumentar a incerteza ou mal-entendido sobre o valor da IA, o que se espera que esta ferramenta facilite.

“Design é muito mais do que simplesmente montar, encomendar ou mesmo editar; é agregar valor e significado, iluminar, simplificar, esclarecer, modificar, dignificar, dramatizar, persuadir e talvez até divertir” – Paul Rand

Como usar o Canvas IA

Este canvas é composto por 10 blocos de construção. Começa-se definindo quem será o público para o qual está tentando resolver um problema (“Projetado para”). Pode ser o cliente ou um departamento específico da organização. Depois de escolher as pessoas trabalha-se no canvas, da parte superior direita para a esquerda, terminando com as três caixas na parte inferior.

1. Tarefas a serem realizadas

Da mesma forma que a teoria Jobs-To-Be-Done de Clayton Christensen, que inspirou esta ferramenta, um dos objetivos é garantir uma compreensão profunda do problema que se propõe resolver, mesmo antes de considerar a IA. Nesta primeira seção, a intenção é identificar o problema que deseja abordar para o seu público-alvo.

Pergunta:

  • O que você está tentando realizar?

2. Promessa da IA

Nesta seção, lista-se os benefícios de usar IA em sua organização para a tarefa que você está tentando realizar. É um processo que será simplificado? Os dados inativos serão limpos e aproveitados? Ou uma etapa específica da jornada do cliente será aprimorada? Considera-se os ganhos de introduzir a automação para o público para o qual se está projetando.

Para começar o pensamento:

  • Como a IA pode ajudá-lo com o problema que você está tentando resolver?
  • Quais benefícios o uso de IA pode trazer para sua organização?
  • Como o uso de IA pode ajudá-lo a atingir seu objetivo ou completar sua tarefa?

3. Benefícios para humanos

Com base no que você escreveu na seção anterior, agora liste as dores que serão aliviadas para os agentes humanos graças à introdução da IA. Sejam funcionários ou clientes, considere os pontos de dor que irão embora ou serão aliviados para permitir que sejam “mais humanos”.

Para começar o pensamento:

  • Como os agentes humanos que fazem parte do seu processo podem se beneficiar do uso de IA?
  • O que a IA está liberando nas capacidades de seus agentes humanos?
  • Quais tarefas repetitivas que seus agentes humanos estão executando podem ser eliminadas?

4. Atividades de máquina

Na mesma linha da seção anterior, lista-se as atividades exclusivas da máquina que tirarão o máximo proveito da introdução de algoritmos para resolver seus problemas. São atividades perigosas demais para serem realizadas por humanos? É detectar padrões ocultos em conjuntos de dados complexos que estão fora do alcance das capacidades analíticas humanas? Ou está trazendo velocidade e precisão para realizar uma atividade repetitiva em escala?

Para começar o pensamento:

  • Quais tarefas em seu processo são mais adequadas para máquinas em vez de humanos?
  • Como você pode fazer o melhor uso da precisão e exatidão da máquina?
  • Quais limitações das habilidades humanas podem ser tomadas por máquinas em seu processo?

5. Atividades humanas

Agora, liste as atividades humanas exclusivas que os funcionários continuarão fazendo. Considere as tarefas que são mais adequadas para humanos em vez de máquinas, exigindo julgamento, criatividade ou experiência. Se os humanos desaparecerem totalmente do processo por causa do uso da automação, considerar atividades como interrogar a saída da máquina ou supervisionar o desempenho do algoritmo. Sempre há espaço para a humanidade.

Para começar o pensamento:

  • Em qual tecnologia de IA permite que seus agentes humanos se concentrem?
  • Como você pode fazer o melhor uso do julgamento, flexibilidade e criatividade dos agentes humanos?
  • Quais atividades em que a IA não pode ser usada devem ser superadas por seus agentes humanos?

“Seu trabalho em um mundo de máquinas inteligentes é garantir que eles façam o que você deseja, tanto na entrada (estabelecendo as metas) quanto na saída (verificando se você obteve o que pediu).” – Pedro Domingos

6. Colaboração

Nesta seção, queremos examinar as atividades híbridas em que humanos e máquinas trabalharão juntos para resolver seu problema. Considera-se as oportunidades em que os humanos ajudam as máquinas e as máquinas ajudam os humanos. Eles trabalham lado a lado e interagem, em última análise, a nova tecnologia aumenta a produtividade dos funcionários.

Para começar o pensamento:

  • Qual é o papel de seus agentes humanos em supervisionar o desempenho da máquina e refinar o modelo?
  • Como você pode usar as informações de seus agentes humanos para melhorar a eficácia de sua máquina?
  • Qual é a relação entre seus agentes humanos e sua máquina?

7. Reforço humano

Em última análise, não se quer que a máquina execute tarefas desconectada do resto da sua organização. Os benefícios devem ser transversais e permitir ampliar as capacidades dos agentes humanos para desencadear novos níveis de produtividade ao mesmo tempo. Procura-se oportunidades de aproveitar todo o potencial de uma organização homem-máquina, onde o pessoal é capaz de aumentar as capacidades (ou “humanidade”) aprendendo com a produção da máquina.

Para começar o pensamento:

  • Como a IA pode influenciar o trabalho de seus agentes humanos?
  • Como a IA pode aprimorar seus agentes humanos, adicionando às suas capacidades e melhorando seu processo de tomada de decisão?
  • Que ciclo de feedback você vai construir entre a máquina e seus agentes humanos para aumentar sua inteligência e habilidades?

8. Pensamento crítico e preconceitos (vieses cognitivos)

O pensamento crítico é uma das muitas habilidades cognitivas humanas que nunca serão dominadas pelas máquinas e que nos torna verdadeiramente únicos. Nesta seção, deve-se considerar as medidas que implementará para lidar com os potenciais pontos cegos em seu modelo de IA. Identifique onde o pessoal precisa continuar desempenhando um papel influente, porque isso não pode ser totalmente entregue às máquinas. Precisa-se ter certeza de que está realmente sintonizado com o funcionamento de sua IA para evitar o problema da “caixa preta”.

Para começar o pensamento:

  • Quais são os limites do que você pode fazer com IA em seu processo?
  • Quais decisões importantes ou complexas não podem ser assumidas por máquinas em seu processo?
  • Como você pode aplicar o pensamento crítico ao desempenho de sua máquina e superar seus potenciais preconceitos?

9. Considerações e implicações

A IA é uma oportunidade promissora, mas também apresenta riscos se cair em mãos erradas. Como nossas vidas se tornarão ainda mais dependentes da IA ​​em rede em sistemas digitais complexos, é importante prestar atenção às possíveis preocupações éticas, morais e sociais que podem surgir. Nesta seção, lista-se as considerações que precisam ser abordadas para garantir que você projete uma IA responsável que corresponda aos seus valores.

Para começar o pensamento:

  • Como você pode garantir que sua IA seja desenvolvida de maneira responsável, segura e confiável?
  • Como você pode abordar as questões sociais que a maneira como você está usando IA trazem?
  • Quais normas morais, éticas ou filosóficas devem ser levadas em consideração?

10. Gestão de mudanças

Conforme discutido anteriormente, implementar IA em uma organização pode provocar mudanças profundas e não pode acontecer sem um plano de ação claro. Para construir confiança e facilitar a aceitação da nova tecnologia, é fundamental reservar um tempo para considerar como os processos serão reinventados, como será comunicado a proposta de valor do uso de máquinas – para os funcionários ou clientes – e desenvolver os talentos das equipes. Liste as medidas que serão implementadas para dar o passo em direção ao futuro da organização com tecnologia de IA.

Para começar o pensamento:

  • Como você gerenciará as ansiedades de seus funcionários que podem estar preocupados com a interrupção de suas funções?
  • Como você treinará novamente sua força de trabalho para garantir uma transição tranquila de sua empresa para a era da inteligência artificial?
  • Como você comunicará aos clientes a diferença entre suas experiências humanas e mecânicas?

Conclusão

Transformar organizações usando novas tecnologias é uma tarefa desafiadora, especialmente quando planos claros ainda não existem. Este canvas não fornecerá todas as respostas, mas espera-se que possa desempenhar o papel de um ponto de partida em sua jornada. Como humanos, é nosso dever projetar sistemas que celebrem e elevem nossas qualidades humanas.

Criar a legitimidade da IA ​​exige que desaceleremos e nos envolvamos em uma discussão aberta sobre suas implicações. As apostas são muito altas para abraçar a retórica “mova-se rápido, quebre as coisas“. Em última análise, incluir seu pessoal e obter seus feedbacks sobre sua visão ajudará a mudar as percepções negativas da IA ​​alimentada pela cultura pop, mas também ajudará você a explicar os resultados potenciais de adotar a nova tecnologia. É hora de mudar o tópico do qual os trabalhos serão eliminados para como a IA deve ser implementada para aprimorar as capacidades humanas. Parar de pensar em robôs como substitutos humanos, mas começar a pensar neles como parceiros com um conjunto de habilidades diferente.

Nesses empreendimentos, o design centrado no ser humano – e sua promessa de construir novas soluções feitas sob medida para atender às necessidades das pessoas para as quais está sendo criado – é uma ferramenta essencial para os criadores de mudanças que desejam criar bases saudáveis ​​para um futuro viável onde os humanos são realmente apreciados, e não escravos das máquinas.

“Pensamos muito e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e gentileza. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.” ―Charlie Chaplin

Nesse caso, o público para o qual estamos modelando o negócio usando o canvas é o departamento de RH, que está considerando implementar um assistente de IA para criar um ambiente de trabalho com bem-estar estável.

Clique aqui em Human-Centered AI Canvas para baixar uma versão em PDF do canvas.

Referências

Observação: Este artigo trata-se de uma versão traduzida e adaptada do artigo original: “Introducing the Human-Centered AI Canvas“, por Albéric Maillet.

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